segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

algo molesta minhas interdimensões mentais
distorce tudo
levando ao estado de percepção sorumbática

se andei manuseando é novidade para mim
pois estou isento de poderes
fraco...solitário...acuado

desconheço sua dimensões venusianas
minhas dimensões agora são
MOFO, AGONIA E NULIDADE...

não tem dimensão nenhuma
o que está aqui é aqui e pronto....
sem energia
totalmente obliterado por auto-idiotia
rastejando sem esperança no lodo da rotina
saciado?
perco a jóia verdadeira e estou saciado?

que espécie de fast food andas a degustar?
sinto que vossa percepção está alterada não por mim
e sim pelo oceano de recalques de suas intempéries mentais
nem vernáculo possuo desde antanhos!

vossa visão é turva
de onde estás é o que és
não vislumbra e nem sonha
vai findar afundado na própria merda tal qual a mim

não duvide
pois sua dúvida recai sobre si
é um reflexo de sua desgraça
a repetição incansável de um mantra de dor e desespero

rumino e engulo e doí mais a cada dia
olhe pro passado e deixe ele lhe arrebatar
o futuro não existe!!!!!
continuo preso
meu leito é frio

insetos
mofo...

continuo fascinado
correntes riem de minha dor

lâminas de barbear dialogam
com minha jugular

é isso,
mais um belíssimo dia
na vida de um idiota!!!!
sem dimensão
dor de barriga imensa...
ódio ódio ódio
um cálice de veneno por favor
sem espaço

trancado com minhas dores
a vida revela-se uma maravilha decadente a cada amanhecer...
sou escravo
não me incomodo
desde sempre fui inclinado ao torpor
será que quero ser normal?
será que trago em meu pacote de vísceras a essência da vida comun?

durmo em meu vômito!!!
sinto o cheiro,
lambo o vômito da vida
juro que não suporto mais essas luzes
esse virar de copo eterno
é por aqui, é por ali...

trago em meu lombo todo um manto de desgraça,
burrice e dor
sem módulos
a cada mudança a "vida" refaz vossa programação
caímos mais uma vez na ânsia maldita de querer mudar...

mude e nada presta
permaneça e nada presta
morra e nada presta

ter e não sentir
ter e não ver
ter e não tocar!!!!...

a merda escorre por entre as pernas
não consigo levantar e ir adiante!
os modelos se espatifam no chão
feliz agrura
feliz ruína
bom dia
boa manhã ensolarada
boa queimação de estômago

atraso meu relógio
o tempo é cruel
a palavra atravessa o universo
e rasga cada centímetro de sanidade
feliz pesadelo
feliz dor de cabeça

onde está meu presente?
é uma lápide!
obrigado!
"NÃO DESCANSE EM PAZ"
lágrimas lágrimas lágrimas
não entendo minhas palavras
ligo melodias
acendo janelas

feliz desaniversário solitário
feliz merda diária
feliz infelicidade!!!!!!!

25/12/2007

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

sem tempo
lodo fino
espalhando-se
quimera
náusea volta

vejo a vida
corro de medo
alucino
sem remédio
sem futuro
brinquedo mordaz

atravesso paredes
engulo monotonias
surrupio nada
morro sonho!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

eu não sei.
triste. só.
sinto demasiado
parece outra sensação.

imparcial.
vida. morte.
coisa boa
coisa má
escrúpulo

choque. aturtido.
pressa. ordem.
defina e morra
destrua e viva

sigo. contenho.
explodo.
ninguém vê.
culmino em dor
agora adiante.
dádiva extinta

cores e tristeza
lâminas e sonhos
fome e malogro
pedra e sapato

tarde!
tarde demais!

15-11-07
murcho
sem vontade
sem escolha
queda.
indisposto
sempre ausente

esquecer
seria bálsamo
ressurreição
um novo fantasma
a cada dia!

tapa na cara
unha na carne
pronto.
marcado pra sempre

criar um rumo
tecer uma
nova indumentária
chaves novas
pra velhas portas

enrugado
rútilo
sombras murmurantes
deito.
refugio-me.
sou ignorado
em minha ânsia
parvo.
esquisito.

15-11-07

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Este é o mês das condolências. Corações repletos de ternura. Néons piscando incansavelmente. Mensagens de fraternidade. Uma leva de seres iludidos numa hipnose de cores fortes. Natal sempre me deprime. Lembro de me sentir profundamente sufocado com o arroubo dos parentes chegando. Eu do alto de minha inocência quase morta querendo que acabasse o mais rápido possível. Que as portas se fechassem e o sono chegasse para tranqüilizar. Tudo é muito vago, imagem turva perdendo-se no labirinto da memória. São fatos para mim sem nenhuma relevância. Papel mofado. Amigo falso. Trapos revoluteando até sumirem. Ilusão nefasta. Covardia. Minha avó comprava “o forte apache”; cavalos, índios, cowboys, carruagens, e areia do agreste nordestino ajudava a compor o cenário ideal para lutas, conquistas, derrotas e tudo o mais que a maravilhosa insanidade da infância pôde proporcionar.
Hoje fujo de toda esta balbúrdia. Ás vezes um garrafa de vinho barato, discos na vitrola no último volume, revistas velhas de um tempo em que havia pentelhos nas modelos e algo terrivelmente gorduroso para acompanhar. É impossível engolir a hipocrisia. Sorrisos mostrando recentes visitas ao dentista. Orgulho em mostrar a roupa limpa mesmo sendo falsa. E o pior são os presentes; eletrodomésticos, colares, fôrmas de bolo, camisas regatas garimpadas nas mais obscuras das promoções, carteiras portas-cédula, mas o pior mesmo são as bijouterias dadas com tanto fervor e carinho que parecem mesmo serem verdadeiras jóias, a lista dos horrores é de uma imensidão que encontraria o caminho do cemitério e não chegaria ao fim.
26 de dezembro de 2005, um dia após toda a bazófia, daqui uns dias e mais um ciclo recomeça. Já não agüento mais a profusão de propagandas, roupas brancas, garrafas de champanhe barato, sorrisos esmaltados. Minha avó enfeita com tiras brancas e amarelas o retrato de minha bisavó, como se estivesse conversando com ela carinhosamente. Estranha ternura. Sensação de profundo fracasso. O tempo rápido de demais. O músculo que comanda as correntezas estrebucha anunciando o provável fim. A criança desliga–se do mundo alienada em um novo brinquedo que aprisiona pedaços do real. A carruagem repleta de ilusões já sumiu no horizonte. Mais um dia. Menos vida. Cinco dias para uma efusão de promessas: “Juro que não como mais gordura.” “ Beberei socialmente e nada mais.” “Quebro meu cartão de crédito.” “ Dessa vez paro de fumar.” Enfim balelas e nada mais.
3 décadas e seis meses. Quente como um forno a província rasteja. A decoração de fim de ano é uma das coisas mais deprimentes que acontecem por aqui. Pobre em detalhes. Até parece reaproveitamento da decoração do ano passado. 30 anos e aqui estou enterrado num buraco no fim do mundo. A árvore de natal de 83 metros pisca radiante para as janelas dos arranha-céus. Famílias paupérrimas acampam debaixo de uma ponte que dá acesso ao um bairro de classe-média da cidade. As lojas vociferam tonitroantes refrões hipnóticos. Enorme cansaço. Fodam-se todos e feliz ano-novo!
Entrego os pontos... dissimulo a vida em mínimos atos... na escuridão apenas o perigo... dependuro-me na linha do horizonte... cada amanhecer um certificado de que o caminho verdadeiro é pura solidão... o sol ferve os miolos... otimismo, esperança destroçam meus nervos... espero que o sangue esfrie... pra quê serve a convicção?... renego o que os sonhos tentam me dizer... giro a maçaneta... sou hipnotizado por imagens corriqueiras esplendidamente novas... afundo-me na merda... acato a miséria... sinto o descontrole tal qual uma nuvem de gafanhotos famintos... aquele amanheceu de cara na pedra... outro vomita no ônibus... tudo é simultâneo... o mundo é uma piada séria... do alto do morro vejo chamas tremulando a beira-mar... parece nascer um vórtice de medo em minhas entranhas... sempre é isto de ir e não mais voltar... aranhas despencam dos quadros ... são quatro paredes sujas que me acompanham há doze anos... abro a panela: vazia... abro a carteira: nada...aos poucos vou me esvaziando-me... roupas no chão... a roda gira numa harmonia inversa... ferrugem... cansaço... a estrovenga passa próximo ao calcanhar e como era alvo, luzidio o gume dela... e nas inúmeras páginas de minha memória os ícones, arquétipos vão sumindo engolidos pelo tempo... quanta confusão... a primeira palavra da manhã é: peste... tudo bem?... entrei numa crisálida em que mal posso respirar...
E sob o olhar gélido de uma musa de bronze
Minha alma toma aspectos e sensações inimagináveis
Caminha claudicante a trilha insondável
Do eterno conhecer sem saber sobre qualquer coisa

Agora que a luz natural se finda
Num último giro universal,
Adormeço entre as pilastras alquebradas da reclusão
Onde o corpo repousa banhado de oníricas vibrações

Revolvo-me, luto, temo e não acordo
Pois acordar é entregar-se ao calcitrante pesar
De estar onde é impossível inexistir;
A utopia tornou-se inutilidade antes do dia morrer

Outrora minha voz não era minha essência
Por estar muito entrelaçada com o tosco exterior
Contaminando-me, adoecendo-me, enfraquecendo-me;
Sim! Fecho as portas mesmo deixando-as abertas

Quiçá um dia a luz perfure–me os olhos
Pilhando-me da alcova cinza do sonho
Cultivarei o esquecimento como melhor providência
E a saudade como eterna inspiração...
E lembrar o que sonhou?... fetiches de ilusão suprema... é desconcertante quando acordo... imagens derretem, deslizam por todo o corpo... o manto da morte arremessa todos no mais profundo esquecimento... a língua ácida do verão chega queimando tudo... e lembrar do que prometeu?... vingança... este que escreve não é simplesmente que se é... imagem sumindo no espelho... carne cicatrizando... língua vibra no ar... perna que treme... honra apodrecendo... ninguém escuta velhas palavras... tudo é desinteresse... mormente locomovo-me até a geladeira e sorvo em tedioso frenesi goles de água suja... um anfíbio saltita da cozinha até a sala... onde estão as razões para tudo?... cave um buraco... seja benigno... o sucesso será tua recompensa... 7 chaves para tudo mudar... 7 feridas pra serem cuidadas com carinho... 7 dias que são um enorme torpor... porquê as paredes do labirinto não param de se reproduzir?... dentro da fantasmagoria que é o espelho os bonecos de minha pantomima movem-se com a graciosidade de leprosos, velhos e aleijados... embaçado... a palavra que me toma é tosca... adormeço no pó da minha sala repleta de velharias... inutilizado e com temor de não acordar vou ao mundo que não é mundo pra tentar suportar este que me tortura... lembro de que não esqueci nenhuma folha em branco... lembro?
É ledo engano tudo aquilo que você pensa sincero... a hipocrisia é linda, amarga e suja... coração explode rumo ao fim... linda lâmina flutua na noite... falsos bruxos... é pura verdade toda essa turba... eu ainda me engano, ainda acredito em tudo... ah! e por debaixo da pele é só doença, uma ode ao perecimento... amanhece, o peso das horas me faz lânguido... vejo o sol lutando contra as nuvens... uns tagarelam o tempo inteiro... de olhos féchados mergulho em doce bruma... recolho as peças do jogo... sopro a poeira do velho disco de vinil... é pavoroso o existir... são tantas as variantes que me sinto perdido... repúdio... músculos doem... não sei o que me espera... acalanto... velhas fórmulas... repete-se de maneira enigmática as páginas da vida... sussurros... hoje apenas ouvi a turba... saudades da feira... há tempos não recebo notícias... quero uma dádiva no fim de tarde daquela que é a mais linda... ilusão... tento limpar o espelho antigo quase carcomido... tolice... preciso tornar-me húmus para que os vermes da criação passeiem em minha moribunda carcaça e novamente a vida a explodir multicor e atordoante... não sei o que está acontecendo, nem o que vai acontecer... a tela me espera vazia como uma virgem de pernas abertas... é verdadeira utopia a mais pura verdade...

Novembro - 2004
Domingo, 17 de dezembro de 2006

Vejo... sussurro no vazio da noite... espreito o perigo... trago nas mãos sangue, não sei de onde, não sei de quem, não sei como... o ritmo aumenta... sem inspiração insisto... arrependimento... tenho que solucionar de vez este calvário que a minha vida se tornou... sem vontade, sem opinião, mera peça de um jogo, nunca decido, nunca sou ouvido... onde é o meu lugar nesta porcaria de mundo? Onde procurar o caminho certo? Obedeço ou não essas vozes lindas em minha cabeça? Até quando vagar tal qual um zumbi?... meus bolsos vazios imploram por uma arma... débil mental... minha avó diz “ Vou embora com 2006 ”, eu escuto e ignoro... aqui o legado é pura merda... pássaro pousa no fio, estrebucha e cai morto... agora queria todas as lembranças da minha vida, todas sem exceção... sol se pondo e eu sei que você está aí em qualquer lugar perdida no espaço fantasmagórico da inteligência... sem regras... sonhos perdidos... leve meus segredos pra longe daqui pois já não os tenho... o tempo massacra... nem o sei o dia de ter tido um momento de tranquilidade... nem a mesa de bar alivia-me mais... cansei dos discos.. música invadindo tudo... lágrima represada... coceira... olhar ensadecido... preciso de pílulas... aqui no sofá enojo-me deste ócio, desta atmosfera de consumo insuportável, a maldição da propriedade piorando minha condição... os nervos do braço avisam com dores finas e formigamentos que algo não vai bem... o dia passa rápido... as pessoas vagam sorridentes na fantasia mínima do fim de semana... a criança chora... esqueço coisas... canso de pedir e não ser atendido... sinto o fio da lâmina na ponta do dedo... motor ronca... guardanapo... gato esmagado no asfalto... saudade... a porta abre e sou intimidado a sair de onde estou... não entendo as pessoas... silêncio... coço a cabeça... e lá vou mais uma vez pelo pântano... coço a virilha... perdendo a forma... palavra esvaindo-se... faça isso, faça aquilo... limpe, sorria e limpe de novo... crise... este sou eu falando comigo mesmo numa maré de erros e tem cuspe no meu espelho, nojo... boneca desmembrada dentro do guarda roupa... vergonha... todos os dias são alfinetadas... desespero... a matraca repete incansavelmente a ladainha de todos os dias... luta... domesticidade castrante... frustração ergonômica... desvio os olhos da desgraça... ali na janela algo interessante... sou puxado de volta pra minha ruína... o mundo me espera... não consigo me mover... atire logo bem no meio da testa, elimine de vez, acabe com esta agonia insuportável de estar e não ser, de ser e não sentir, de ter e não servir pra nada... sou um homem de poucos atributos... grito na noite fria que se inicia... o gatilho falha, despenco em meu leito num sono profundo isento de sonhos a espera de um dia que eu não desejo ver... agora é o momento final, agora onde tudo é expiado, justamente agora me calo e deixo o silêncio responder por mim...
Dobro a esquina... a cortina se abre... folha seca, já cinza no chão esburacado... a lombra agora é um peso... o frio machuca... às vezes não entendo a vida... você acorda: a traição rouba-lhe um beijo nas primeiras horas da manhã... você almoça: o azar vem e lhe recita poemas... tudo no momento é uma nuvem esquisita... jubartes mortas à beira-mar... a agonia torna-se um frisson... engulo todas as tralhas e durmo... estranha velocidade... outro dia... as unhas gélidas do inverno castigam de pele... você janta; a miséria vem e arrota em tua face límpida o hálito da fome... outra manhã... anéis no chão... hoje saio da alcova... um olho vislumbra o passado em cores e sensações que parecem um sonho... o outro olho contempla o futuro em tela virginal branca onde surgem e desaparecem imagens intraduzíveis pro aqui presente... você se prepara para o sono; a loucura ronda impaciente ansiosa para tomar-lhe nos braços... farelos na mesa... uma família se estilhaça... moscas se refestelam numa minúscula poça de café... tento aquietar-me... o mundo urge e vibra velocidade constante... o mundo que sou dorme e quer mais letargia o tempo inteiro... você levanta-se na madrugada para urinar; a dúvida vem acariciar tua genitália como se fosse um sonho... lá fora as máquinas se movem rumo ao trabalho... bocejo e nada acontece...

9/10 – 8 - 2004
Cuidado diante das armadilhas da vida... fantasmas sussurram melodias fascinantes... minha avó joga sementes num canto do quintal, dias depois, constato a força da natureza rompendo barreiras rumo ao sol... e uma imagem me persegue... o real é um fotograma do sonho... doença, cansaço, esquecimento... vermes rastejam sob a pele... nunca mais ressaca... quebre o vidro e respire!... esta redoma não comporta, não produz mais nenhuma novidade... perguntas vazias, tolas palavras... ontem saudade absurda do inferno mais lindo do mundo... hoje pequenas agulhas perfuram de dentro pra fora... a tv devora-me lentamente... caos, caos, caos... quisera um momento de lucidez... beijei a morte na superfície de vidro... risos amarelos... sangue... a tinta gruda nas mãos... calor, forno, vulcão... aos poucos a terra nua fenece... na convulsão dos dias engulo tudo aquilo que não gosto... nervos doem... sem glamour... tenho medo da minha fraqueza... asco... irrealidade... os cacos são cada vez mais diminutos, quase imperceptíveis... urina de gato incensando o antro mofado repleto de tralhas... vazio... insosso... tedioso... cada semente plantada é devorada com avidez por vermes...não tenho planos... ontem cama, páginas, solidão e uma confusão quase pacífica pertubando tudo... lá fora uma melodia do passado... aqui, nada!

Julho - 2005
Coisas se entrelaçam... nós e tantas histórias... aqui e agora... preciso de vida... refugo... gasolina... cansei do mofo... cansei da alegria... brinquedo... regras... penso e não faço... chá quente... úlcera... amigos mortos... rasgo a realidade... a pele sofre... ganho mais uma cicatriz... impaciência... grande fenda vermelha, lambo as paredes, meio doce, meio azedo, paredes macias, vivas e fortes e mergulho debatendo-me até alcançar a paz... calor... barata morta... onde está o poder?... são tantos os desejos... sub-realidades.... vermes cantando vitória dentro de nós... deito e tento esquecer... a palavra foge... as cabeças latejam... pensamento... pulso... formigas em busca do açúcar... falso... macabro... lindo... irreal... roupas velhas... flashes homicidas impregnam minha mente em milésimos de segundos, não sei até quando vou agüentar... o passado não pára de me atormentar... nada vinga nas paredes gélidas da província... sou apenas um velho caminhando para o fim... a roda gira... a sorte esvazia a geladeira, caga no meio da sala, arranha meus discos, planta em meus flancos a discórdia e vai embora... novo ritmo... o tempo é carne... as horas são rugas... toda palavra é não... cavo a terra seca... desespero... cavo a pele úmida... fulgor... bebo o meu suor... solidão... onde está o déspota benigno que é o melhor para todos?... desculpe se não acredito mais em nada... vou a um exame para a escravidão... morte... ser o que não se é e sentir felicidade...
Levantou e
religiosamente pegou da garrafa de gim.
Tomou um bom gole.
Sentia como se um elixir de vida invadisse o corpo.

Coçou o saco,
escarafunchou o nariz.

O torpor de ontem se confundia
com a ressaca de hoje.
Pegou a toalha quase podre.
O sabonete era um resto de semanas atrás.

Calor demais.
Às vezes feliz em minha solidão... abriram a porteira, os vermes voltam pra casa... o que salva é o sangue, mesmo podre... sempre interrogações sem respostas... enormes olhos castanhos debruçam sobre mim... às vezes nada... velhas canções de folclore devoram o resto de alegria, arremessando-me à uma dimensão de indelével tristeza... diante de um vazio inexorável sinto a ruína comichando... não sinto nada... dores no peito... minhas córneas já estão cansadas... hoje descobri uma imperfeição... a energia incontrolável dos filhotes ainda é o que resta de beleza... perco rumo, aliás, o rumo me perde, foge de mim... talvez esteja longe daqui quando menos esperarem... urina, fezes, vômito... não há mais paz, só vozes estridentes... aviltado diariamente... desolação... todos dão um passo... recuso-me ao real... exterco oferecido na tv... parece que a beleza esvaiu-se de tudo... será válida toda essa luta em prol da vida?... quando fecho os olhos, estradas, vales deslumbrantes, ravinas, montanhas, rios, banhos de chuva, sono ao relento, longe de tudo, perto de si... vença ou morra... quisera as dádivas de um momento tranqüilo... reina em mim um desânimo incrível... sinto a morte cada vez mais próxima... a felicidade é transmitida de maneira doce, suave e ilusória... agarro-me a fiapos... dou murro em ponta de faca... não sei o que fazer.

16-11-2004
Arma-se o palco... latrinas ao vento...pernilongos fustigam... ela não acredita mais... quero uma dose de café... aqueles que acreditam nada fazem por mim... as faces assustadas das crianças da Chechênia desperta ódio... distraio-me... o tempo passa... percebo a derrota iminente...estranhamente sinto-me calmo... mudo canais... ouço a vida lá fora... estaca zero... tenho mais dez anos de vida e mais nada... o fútil na tela, o tolo na eterna espera, a bazófia na esquina, a angústia aqui pulsando no peito... o sono chega... num piscar de olhos chega o dia... frente-a-frente com a desgraça... engulo um pedaço de aço... músculos extenuados... a língua ribomba e não dá jeito em nada... a doença é o final para todos... dor, morte e vida se confundem nas primeiras horas do dia... o corpo tomado por leve apatia insiste em dormir... langor... pesadelos, rupturas, pavor, crise... o cavalo da minha desbraga sertão a fora sem brida, pura energia em meio ao nada... o novo sempre mais distante... são tantas imagens, uma torrente pulsante que me cega por completo... um livro, um passo, uma página, outro olho que se abre... a palavra transmuta quimeras, ilumina antros de profundas escuridão... todo o momento cada vez mais perto do fim... todo o dia um trampolim apontando para o vazio... o anzol volta vazio... fico quieto...
Antes de tudo tenho uma missão... destravo todos os mecanismos... insisto em sobreviver no tédio... amigos longe... daqui contemplo a montanha, impressiona a majestosidade... esqueço o quanto sou frágil... deixo muita coisa para trás... corro como um tresloucado, alguém me chama, quando me viro um tijolo com resto de reboco choca-se contra minha face, não sinto nada, apenas um clarão, e um pirralho de bermuda vermelha sorrindo da pancada... na manhã de segunda-feira levanto tomado por extrema fadiga, rego o pequeno idílio de plantas medicinais e outras que não sei... não queria pensar nessa merda que o mundo se tornou... tento melhorar minha vida mas revela-se inútil... o antro é pura imundície... doces canções para suportar... todas as noites tento um mundo de fantasia... formiga na tela... o labirinto é cruel... calmamente sigo... penso entender mensagens subliminares em tudo... tenho certeza que não estou louco... tenho milhões de certezas que não servem para nada... o vórtice de lama é cada vez mais forte... o espelho velho merece ser quebrado... despejo minha ira em qualquer coisa... ontem tive medo de dormir só... olho o céu e não entendo uma beleza tão devastadora... animais dormem no sofá, animais regurgitam na privada, animais dançam na tela, animais passeiam com outros animais... na gélida sala de cinema afundo-me em doce contemplação... e dentro da realidade fundem-se mil realidades intraduzíveis... todo dia é uma nova morte... bocejo ... sinto travar tudo... espero que tudo acabe bem... estou só e não estou... faltam apenas alguns milhares de dias para que tudo acabe... odeio fim de ano... sempre acontece merda... féretro... a noite desce numa suavidade deliciosa... coroa de flores... amanhã é meu aniversário de qualquer coisa... animais gritam na sala.
Amanhece... inicio a perda de mais um dia... o gato dorme profundamente no sofá... da janela do ônibus vi Ferreira Gullar caminhando em Copacabana... porquê a velocidade das coisas? Tento ser lento... na beira do abismo que é a consciência arremesso minha linha, passam-se eras e eras e nada... lá fora o sol é engolido por uma nuvem... e num quarto desfaço nós um atrás do outro... se a minha vida fosse um sonho não queria acordar... copo vazio debaixo da cama... sou um péssimo negociador, nasci para o deleite contemplativo... bala... foice.. martelo... dinheiro... M16... AR15... HK... sinto saudade das madrugadas repletas de saraivadas, enxames de abelhas fumegantes cruzando o firmamento... Joan Baez acalenta a lama nas primeiras horas do dia... uma nova porta se abre... pés de chumbo... minha loucura me basta... a fome mais uma vez atormenta... as portas se fecham... a significação das coisas vai sumindo... um peido pela manhã quase em jejum me faz lembrar Jean Genet... viola... guitarra... berro... drummor... baixo... distorção... começa ontem termina hoje termina ontem começa hoje... escalo meu abismo com furor mas o buraco lá embaixo clama minha queda... bocejo... ali a latrina me espera... bichanos miam na manhã de quinta-feira...fuligem... nervoso... sobrevivo não sei como... minha bisavó tece um fio eternamente na parede da sala... sem identidade... todos engolidos pela morte...
A todo instante penso que alguma coisa vai parar... com uma foice em punho caminho pela casa de paredes sujas... deparo-me com um adolescente sem rosto... não há diálogos... tremo que nem vara verde... as mãos pingam... desfiro o primeiro golpe... o moleque tomba... fome muita fome... lambo o gume da foice... a cabeça de um lado, corpo de outro... novo golpe e agora separa o tronco... meto a mão nas vísceras ainda quentes... sede muita sede... totalmente descontrolado arranco os braços, as pernas... e danço na poça de sangue respingando vermelho nas paredes de pau-a-pique... banhado pelo que restou do outro abro uma porta de um quarto escuro, entro e é como se nada tivesse acontecido... todos os dias retorno pro meu leito de solteiro... quisera não retornar, sempre ir sem saber onde chegar... todos os dias é viver o pesadelo da monotonia... ouço os velhos discos com sangue de outro ainda nas mãos... aprecio os coágulos na lâmina... urge a morte em meu peito... nada é sério... quando falo é a minha voz? Quando penso é a minha consciência? Quando acordo não estarei acostumado ao pesadelo ao ponto de pensar que aqui é o real? Tudo são retalhos desconexos... ejaculo no vazio para que o sono venha logo... hoje a lâmina descansa... amanhã talvez eu não saia do quarto escuro... amanhã talvez seja tudo escuro...
A luz incide sobre a planície... na tela luminosa o passado se repete... a prostituta de rosto angelical não me reconhece, depois sorri, resgatando meu registro de sua profundezas... fecho portas e janelas... e num outro dia tenho a impressão de que a vida é um quebra-cabeças desmontando-se... a tarde de domingo é de brisa afável, garotas vestidas de rosa-shock e lambuzando-se com sorvetes servidos em copinhos de plásticos...ali na esquina o inferninho vibra... o aleijado passeia sorridente em cima de um skate, usando a mão como alavanca impulsora... catarro vibra quando tusso... o povo pulsa pelas veias da cidade no crepúsculo que se anuncia... qual é a minha missão?... minha única arma é contemplar... o silêncio aumenta ao meu redor...tenho sensações apavorantes... a criança olha-me com curiosidade, a criança vai embora sem que eu corresponda... pipas dançam no ar... monóxido de carbono... num momento ao abrir a primeira página sinto a mixórdia de cores do contato inicial, dias depois mesmo sem ter a intimidade necessária, julgo a obra lenta, tediosa e penso em abandonar a leitura... o cego repete o seu mantra com voz de contralto “dai-me uma esmola, dai-me uma esmola “, mas ninguém escuta... será que não há nada melhor que a raça humana?... não acredito em você, não acredito em mim, não acredito em porra nenhuma... paranóia... zombaria... outdoors gritam forte dentro de minha cabeça...
A cada passo parece que qualquer coisa vai estourar... nas antagonias que compõe a vida vou despedaçando o resto do cacos... meu bichano preto e branco alisa meu coração num sonho... sinto-me só... apenas a doença e eu... quase entrego os pontos... castração profunda... o verme da angústia lambe meus pés, nada numa poça de pus em minha coxa... leio histórias deliciosamente horríveis... a manhã explode multicor... pulmões morrendo... catarro perene... gosto de sangue... tudo é um louco diálogo para não pirar... cheiro de café... na noite de segunda-feira lágrimas aos olhos... longe muito longe... uma mão invisível aperta-me o peito... são tantas as cobranças... meu reino já nasceu falido... daqui debaixo lembro da beleza de contemplar a província do alto da montanha... coração enfraquecido... sempre revolvo as tralhas... revistas... livros... fotos... colares... fitas... discos... uma a uma as gavetas são esvaziadas... vísceras sem sangue... ali a vida, aqui a vida que se esvai lentamente... estranha sonolência... há 38 anos atrás um recém-nascido lutava contra formigas... fecho os olhos, a escuridão parece confortável... luto contra a apatia... desço a escada, tenho a impressão de que é interminável... levanto-me, vejo o sol surgir... sobre o rio contemplo as nuvens... enigmáticas formas... uma parte quer dormir... a outra quer vibrar...
Vão-se as horas na comédia da vida... o trem não pára... e o futuro?... saber é irremediável... cai o véu... traço no escuro... toda maravilha é ontem... hoje é recomeçar, o que fica pra trás é pó desaparecendo na linha do horizonte... osso ruído... películas de realidade... de olhos vendados sinto como jamais senti... vem mais um dia... silêncio... lâmina trabalha lentamente... um momento, um minuto... o valor de tudo se esvai... longas correntes... a noite me espera com entranhas macias... ontem a lua pairava em rara beleza... somos sozinhos... somos uma grande e inverossímil piada... sem lastro, sem vida, ausente de valor... menos que um pária... verdadeira lástima... criança espúria... não nasci em lugar nenhum... cada vez mais as lembranças tornam-se insignificantes... janelas que não quero mais abrir... pequena menina branca de gestos carinhosos tem medo de tomar banho sozinha... todos os dias nos últimos três anos, estranhas vozes me dizem, que posso vomitar, desenhar, que minhas mãos vão além do que já são.... o sono puxa-me para o fundo do poço... já passa da meia-noite e as portas e as janelas ainda estão abertas... agora que o cadafalso desce numa velocidade vertiginosamente, imagens vem e me beliscam, cospem, arrancam as cascas de suas feridas diante de mim... você é o que é.

Domingo 27-11-2004
Tenso. Equilibro-me no delicado mundo real. Cada vez é pior. Sinto as tripas arderem. Percebo que as coisas não estão como deveriam. De uns dias pra cá tudo desmoronando. Imensa fragilidade. Aqui com o copo na mão escuto a conversa mole de um transeunte. O mesmo lero-lero de sempre. Sinto vontade de vomitar. Pressinto que a ressaca será dantesca. Engulo a dose de conhaque barato rápido. As tripas ardem mais. O sol castiga impiedosamente. Suo frio. O estômago dói como se tivesse uma gilete passeando cada vez mais no fundo, cada vez mais rápido. Mordo os lábios num misto de dor e inexplicável prazer. O trautear do relógio me pertuba.O tempo não passa. Não agüento mais o balcão, trôpego dirijo-me à mesa. O raciocínio indo embora. A música horrível me faz pedir outra dose, porém de cachaça. Agora só bebo devagar. Daqui desta berlinda de ferro ouço a algaravia das outras mesa: “Eu mato aquela puta, juro por tudo, não vai sobrar nada.” “Ai gatinha vamo nessa que eu tô fissurado nessa buça.” “ Ei rapá essa breja tá quente pra caralho.” Lá fora o sol indo. Não lembro o dia que tenha comido de verdade. Esqueci o sabor de quase tudo. Só memória visual. Não sei onde isto tudo vai dar. Difícil é lembrar como chego em casa. Mesmo cego nunca erro o caminho. O sol ameaça se pôr. Peço a última dose. Engulo de um gole só. Peço outra. Nova porrada. Tonto saio sem rumo definido. Mal viro a esquina e o ventre estrebucha, ânsia de vômito, penso nas últimas doses sorvidas com tanto deleite, respiro fundo, consigo controlar a máquina já arruinada. A cabeça parece que vai explodir. Recomponho-me como posso. Tento caminhar. O gosto indefinível de bílis angustia-me. As pessoas ao redor olham com espanto. Até parece que nunca viram um bêbado. Outras reclamam do meu cheiro. No ponto de ônibus afastam-se de mim. Em profundo alheiamento constato minha total decadência antes das 18:00 hrs. No ônibus sento nos degraus e recomeço a luta contra o Sr. Vômito. Respiro com dificuldade. Cada um que passa pedindo passagem solta um refrão: “Coitado deste aí”. “Vagabundo”. “Jesus te ama”. Nem reajo, afasto-me desajeitado. O hábito avisa que chega o ponto de descida, quase sou chutado. Um moleque cantarola “beber até morrer...”, mando ele à merda com um sorriso nos lábios. Dirijo-me à Praça da Catedral. Antes vou a padaria tomo um copo de café puro. A ânsia de vômito dá uma trégua. Suor desce das tempôras. Vou à banca de revista. Não consigo prestar atenção em nada por muito tempo. Mais uma vez no balcão. Tento disfarçar a fome com uma cerveja. O cara no teclado berrando Carlos Alexandre é insuportável. A cerveja acaba. Peço um torresmo. Parece que tem dez dias. Engulo com dificuldade. Peço mais uma. O garçom atende cansado como se a vida dele tivesse acabado. Não deixo ele me servir. Encho o copo e engulo o líquido dourado até o gosto do torresmo desaparecer. Quase cego levanto-me sem pagar a conta, o garçom vem até a mim, escrutino os bolsos, acho moedas e alguns trocados amassados, peço que conte, minhas mãos trêmulas não me permitem. Pago e vou a escadaria, sinto a brisa, olho pra cima, não consigo ver nada, alguém grita “10:30”. Agradeço e sento-me contemplando as árvores. Hoje os degraus da velha alcova estão vazios. Cada árvore parece querer estabelecer um diálogo. Em pensamento digo-lhes que não estou pra conversa. O tempo voa. Quando tento olhar as horas um passa e diz ‘quinze pra meia-noite’. Respiro tomado por uma ânsia horrível. Tudo embaçado. A bexiga revela-se um oceano de cerveja, cachaça, conhaque. Tento segurar. Nem percebo e já estou mijando o mar morto nos portões da velha catedral. Uma vertigem incontrolável faz tudo girar e despenco, choco-me uma vez contra a parede de cimento, sinto o cheiro de minha urina, tento me levantar, não consigo, e caio novamente, desta vez o estrago é pior, sinto o gosto de sangue, as pernas bambas e despenco pela terceira vez. Tento recuperar as forças, ofegante levanto e cambaleando vou até a escada. Desço pior do que um aleijado desceria. Caio novamente. Enfim resolvo ir para casa. A baiana que não é baiana já desarmou sua banca. Vou pela rua Santo Amaro ziguezaguiando. Quando chego na rodoviária velha dois policiais me abordam , ‘identidade’, as mãos trêmulas buscam a carteira com dificuldade, ‘e esse sangue?’, pergunta o outro policial, ‘tava mijando e despenquei com, a cara no mijo’, aquele que pegou minha carteira devolve com um sorriso de irônica piedade, ‘ vá pra casa , não quero lhe ver mais por aqui hoje!’ por sorte vem um ônibus, constato o vazio do bolso, carteira idem , com o bafo de anteontem peço pela enésima vez para entrar por trás, o motorista cede resmungando, ‘pra encher a cara têm dinheiro.’ Tempestades nauseabundas acordam-me de um sono vazio de sonhos,abro a janela e vomito caudalosamente, banho as janelas e toda a lateral do ônibus. Limpo a boca com o dorso da mão direita. O estômago queima. A cabeça dói. Tento cochilar. Fecho os olhos. A velocidade do veículo pertuba profundamente. Num repente já é manhã de insurportável ressaca. Não consigo raciocinar. A boca amarga. Tudo amargo. Suando frio. Mais um dia de repleto nada. O calor avança. Sede muita sede. Me arrasto até o banheiro, regurgito o que resta da bílis. Levanto e olho as feridas em minha face. E estranhamente não resigno-me, não há remorso apenas uma leve constatação de minha fragilidade física. Sem escovar os dentes volto pro leito. Durmo faminto pois não entra nada. Daqui a pouco será noite. Logo o dia vai passar. Mas esta noite não sairei.amanhã talvez. Porém hoje é só um dia e nada mais!
Um copo atrás do outro... cego... vou pra onde não sei... caminho sob o sol escaldante da manhã... cocaína... bolso vazio... fígado podre... espero não me fuder um dia... todo o corpo dói... vida miserável... mão trêmula... vômito... sono... e o futuro?... vida nova chora nos braços de minha avó... luz insalubre... cada gole uma mancha escura reaparece e toma conta... o mundo ferve lá fora... aqui na ressaca espero que a agonia vá embora... quero um mundo só pra mim... quero tudo que não posso... cabeça latejando... últimos centavos por mais uma dose... doença... cansei de tudo... totalmente sem controle... onde está o amor?... onde está o ódio?... tédio, tédio, tédio... a menina sorri e louva a morte... vou ao banheiro e quando as mesas estão vazias... quebro um promessa... Ororo eleva-se numa nuvem imensa e vai embora em meio a ventania, raios e trovões... o que eu tenho?... nada!... o que eu sou?... um covarde!... e o amanhã?... juro que não sei de nada!... será que ávida é líquida?... cada dia o veneno é mais forte... fel... completamente imaturo... eu sempre estrago tudo... acabou a magia das coisas... hoje a pá está mais cheia... sinto-me um bastardo... não tenho nada... nada!

2 – abril - 2005
Tudo se confunde... heróis são uma piada... tudo reflete... a grande tela me faz sorri... a realidade é puramente efêmera... o preço é caro... o bolso vazio... banquete de restos... a pancada é seca... mil sóis queimam em meu peito... minha palavra é um vale de sombras esquizofrênicas... parece que as coisas tem voz mesmo petrificadas em plena mudez... nada é inexorável... saudades das ruas do doce inferno... tudo se repete... o tédio aflora de variadas maneiras... diante minha face o artificial supera a vida... sinto uma chaga abrindo em meu pulmão.... passos rápidos... suor frio... a noite me cospe numa manhã fria... lembro do perigo orgiástico de rituais ébrios em casarões abandonados á beira-mar... alerta todos, em alerta!... sorria não há como se esquivar... gélido... panelas sujas... vermelho-sangue... respiro... o perigo é você... não ouvem, não sentem, não vêem?... meus brinquedos criaram vida, cuspiram em minha face e foram embora... o estômago revira... mãos úmidas de suor frio... ah! Ia esquecendo o nome é uma farsa somos todos números... algo me separa daquilo que quero... uma vez o mundo explode... daqui vejo sinais de fumaça... equilibro-me entre o real e o irreal... todos os dias uma drágea... a sede não cessa!
Tarde muito tarde... o convívio matando lentamente... toalha molhada... longo muito longo... já não existe mais dor... cada linha escrita torna-se uma expressão vaga de raro mal-gosto... já é natal para os tolos... falsas luzes... plásticas feições... hipnose fatal... a voz telefônica do outro lado da linha mergulha em desgosto... só de lembrar da algazarra de uma família reunida a trocar presentes sinto náuseas e por um instante que durasse dezembro inteiro queria me afastar de todos esses rituais... cai uma ficha, despenca uma vida, o recém-nascido berra pelos imensos peitos da mãe... o que me espera atrás daquela porta?... ignorância pura ignorância... na caixa em que me escondo ainda resta um pouco de paz.... teias de aranha... livros rasgados... pornografia... garatujas que nem eu mesmo compreendo... todos os dias tropeço em destroços de minha existência... pesado muito pesado... a tristeza e o ócio brincam na sala em meio aos restos do almoço de outrora... plantas murchas... a essência repousa cálida, a carne treme de solidão... extremamente perdido... fracasso muito fracasso... sentado na esquina vi a vida passando, de tão pasmado não esbocei nenhuma reação, levantei e fui embora... corda imóvel no canto esquerdo da casa... emaranhado de fios... confusão de imagens, palavras atropelando o peito frágil deste que já não agüenta mais... fotos que desaparecem... palavras engolidas pelos tempo... brinquedos que não funcionam mais...
Sono muito sono... uma apatia que parece irreversível instala-se em minha carcaça... nem sei porquê escrevo ainda... é como se não tivesse razão pra nada... mais uma vez em busca de uma função subreptícia e perder e perder... tenho medo das ruas... rancor muito rancor... migalhas, migalhas é isto que vale todo o meu esforço... pra mim todos os ônibus que pego são caixões... e ao redor catacumbas de 15 andares, catacumbas vendendo produtos variados... um zumbi feminino com o rosto maquiado cantarola Roberto Menescal... sinto extrema inacessibilidade... lembro de um lugar distante... bocejo... de cueca não suporto o calor... daqui a pouco irei ouvir a voz de minha mulher... a tosse de minha Avó preocupa-me... silêncio... ontem percebi o animal em mim... auto-mutilação... o gato preto-e-ranco que me alegrava com peripécias acrobáticas apodrece lá do outro lado da estrada de barro... o violão jaz inerte... vejo a felicidade na face de outros e não entendo... sombrio... triste... o anúncio revela a perfeição de um produto fútil... “ compre, realize,enfim, seja ”... não aprendo nada... catarro escorre do nariz... sem lombra... sem sabor... ossos doendo... cabeça lateja... não consigo encarar toda essa corja reacionária que não respeita ninguém... não luto, mas quero destruir...

03-11-2004
Dobro a esquina ... a cortina se abre... folha seca, já cinza, no chão esburacado... a lombra agora é um peso... o frio machuca...as vezes não entendo a vida... você acorda: a traição rouba-lhe um beijo nas primeiras horas da manhã... você almoça: o azar vem e lhe recita poemas... tudo no momento é uma nuvem esquisita... jubartes mortas à beira-mar... a agonia torna-se um frisson... engulo todas as tralhas e durmo...estranha velocidade... outro dia... as unhas gélidas do inverno castigam a pele... você janta: a miséria vem e arrota em tua face límpida o hálito da fome... outra manhã... anéis no chão...hoje saio da alcova ... um olho vislumbra o passado em cores e sensações que parecem um sonho... o outro olho contempla o futuro em tela virginal branca onde surgem e desaparecem imagens intraduzíveis pro aqui presente... você se prepara para o sono: a loucura ronda impaciente, ansiosa para tomar-lhe nos braços... farelos na mesa... uma família se moscas se refestelam numa minúscula poça de café...tento aquietar-me... o mundo urge e vibra velocidade constante... o mundo que sou dorme e quer mais letargia o tempo inteiro... você levanta-se na madrugada para urinar: a dúvida vem acariciar tua genitália como se fosse um sonho... lá fora as máquinas se movem rumo ao trabalho... bocejo e nada acontece...


9 – 10 – 08 - 2004
Morte na ruela, morte na lixeira, morte no ermo... queremos sem dúvida a permanência do conforto... vago na noite com sede visual de sangue... odeio escuridão... todos os dias o abismo me chama... segredos, segredos,segredos... a lâmina entra na barriga duas vezes, o corpo desaba esvaindo-se em sangue... a luxúria morde minhas tripas... não tenho nada pra doar... e no auge da noite fria encontro o local do crime, o rabecão já tinha engolido o presunto... tudo muito tenso... alvoroço... lágrimas... decepção... a tv alta entra bem fundo no âmago craniano, atrapalha toda a verve criativa... não sei o que fazer diante do enigma da vida... será que esqueço o passado?... estarei vivendo realmente o presente?... três toneladas de dinheiro sumiram de chão adentro... fuligem... panela de pressão sibilando... o sol é envolvido por belíssimas nuvens cinzas... releio minhas garatujas e sinto-me indisposto para qualquer tudo... agora o sol brilha irradiando tudo com vigorosa energia... a minha porção pseudópoda rasteja até a cozinha e refestela-se em maviosa osmose...noite fresca... após uma tare inteira de sono e de sonhos que nunca lembro engulo um caldeirão de palavras delirantes... lá fora grilos cortejam o inverno... aqui eu ando em círculos, falo com as paredes, atesto o quanto estarei só até o fim dos tempos..

Agosto - 2005
Minha senha é verde... o matraquear das máquinas nas primeiras horas da manhã é insuportável... meu número é o 20... extrema letargia acompanhada de suor frio... luvas descartáveis... trajes brancos para tratar as vísceras... catarro ribomba goela acima... minha função é inútil... sinto extrema castração... o humano indo embora... o plástico avança vorazmente... ampolas... quando chego durmo... abre-se um buraco... a pele cicatriza... frágil... suor desce rápido... descontente cortejo o abismo... tudo extremamente falso... o forno esquenta... lembro de velhas palavras... a pior tatuagem é a que não se quer vê... estou prestes a tudo... mas o nada fascina-me profundamente... o podre explode contaminando a todos no corredor... náusea... gritos... as máquinas não param e parecem sorrir do meu cansaço... a voz do outro lado da vitrine grita números.... uma velha reclama... e um emaranhado de vozes entra e sai de minha cabeça confundindo tudo, aumentando meu torpor... a fila é lenta... cédulas pra lá, saúde pra cá... a lâmina afiada deslizava pelo couro abrindo chagas enormes, e sem entender eu pressentia a cura, a lâmina incansável agora atravessava o externo, depois só escuridão... ouvido cansado deste burburinho infernal... meu tempo está passando... melhor meu tempo já chegou...
Mesmo com a porta fechada sinto o cheiro da merda que pulsa lá fora... golfinhos nada em harmonia no rio sujo que corta a província... acima da imundície o sol e as nuvens em formas incríveis... lentamente as imagens retornam aos meus sonhos... canções horríveis na tv... lamento minha pobreza de idéias... um filhote de rato desperta uma estranha ternura em mim... sono... as pedras do dominó caem desordenadamente... fome... a memória convulsiona... o passado vibra na tv... herói viram cinza... vilões enchem o bolso... plágios se eternizam... balas zunindo... piadas perdem o sentido... uns surgem na imensidão... outros somem nas profundezas do ventre terráqueo... o ridículo engole sem piedade... inseto volteia ao redor da lâmpada... a natureza é impiedosa... tento abstrair mas sou puro peso, no máximo rastejo... preciso de silêncio... carnificina... quando desvendo uma página a outra revela-se mais misteriosa... cai uma pétala... a realidade explode em minha face... suicídio... veias carcomidas... tudo fede... sinto saudade da jaula de luz e ilusão... não consigo nada... queria lembrar de tudo... músculos e nervos fervem na solidão... o tempo mastiga minha face... sinto o poder da lâmina... utopia...
Mera ilusão de poder... iluminação... cessam as perguntas... 6 motivos perfurantes lhe aguardam no tambor... a gordura se expande... todos os dias o sono vem cedo... infalivelmente a fome vem em seu horário tradicional... estupor... a barriga ronca, estrebucha, grita, mata o homem em mim... resquício de moral me mantém inerte... tenho que afogar os escrúpulos no que restou do meu vômito... e nas horas que antecedem o alvorecer é cegueira eterna... o fim é tardio, o fim é próximo, o fim é de ontem, o fim paira... velha cadeira de balanço esquecida no fundo do quintal sob a sombra de uma árvore quase morta... ela vem caminha suave deixando marcas indeléveis no existir... a tarde se consuma em calor... o féretro segue rumo ao canteiro de covas... imenso pesar... carne vibrando triste, sedenta, faminta, quase morta... este mundo segmentado não expressa nenhum sentido, apenas um amontoado de regras fúteis... pulso natimorto... palavras e símbolos que insistem em sair, porém eu fecho todos os orifícios e deixo-as como vermes pulsando... voz áspera trincando entre os dentes.... memória rôta... aqui ruína... ali desgraça... lá do outro lado da rua parideiras incansáveis...acolá faca que entra no peito desprotegido de uma idosa... rios de dopamina inundam-me... nuvens cinzas engolem a luz do sol por alguns minutos... agonia... desde sempre uma luta incrível de armas vazias, lâminas cegas, bocas fechadas...


23-11-2004
Máquinas param... homens morrem... épocas são esquecidas... amigos retornam apenas pra visita... não quero sair de casa enquanto essa atmosfera doentia e hipócrita de fim-de-ano estiver no ar... depois a bosta do carnaval... máquinas enferrujam... eu não consigo parar de pensar que tem outro lado, outro país, outra cidade, outras mesmas coisas... homens tossem... estão atrás de mim, tolos, não tenho nada... vermes imperam... a terra estrebucha... deito-me no emaranhado de lençóis empoeirados... contagem regressiva... parece que não chego ao outro dia... a palavra é o que me salva... tanto pra dizer e não consigo... imperfeito e cruel quando olho-me no espelho, quando ouço minha voz, quando acordo e ainda estou aqui... buraco de bala... esmolas aos que precisam... hipocrisia aos que louvam... homens mortos... todo ouro é nada, toda prata é pouca, jazem inertes como dádivas ilusórias... dentes podres... enojado perco a fome... máquinas piscam... lâmina cega... homens peidam... filme antigo... adormeço... colecionadores de merda.... a âncora do jornal sorri quando as letras sobem.... um corpo nu feminino jaz quase podre numa estrada deserta... meio-dia... gato se espreguiçando... cacos... uma melodia antiga... agora na berlinda da meia-noite é só memória do pouco que vivi... mancha escura... páginas e páginas de puro nada... esgoto que explode...flor esmagada entre páginas... homens mutilam... pus reina... cada dia mais só... máquinas auxiliam... a palavra voa... homens abortam ... uma drágea, dois copos, depois privada... máquinas brilham... homens enrugam...
Mais uma vez o sono vem roubar-me do real... a gente conversa e não se entende... insisto no passado... pequena prostituta desliza na mesa... não quero dormir... longe de tudo... insetos em minha pele... não sei o que quero... ir embora sem olhar para trás!... isso aqui está um verdadeiro inferno... não tenha raça!... a foice silva dois metros acima da minha cabeça...as veias do pescoço pinicam de dor... fantasmas... álcool ferve nas veias... uma linda garota estava apagada na minha mente... a casa ameaça cair... muita confusão...libido distante... não sei mais o que me dar prazer... não tenho memória sólida... meu sangue voa nas asas de um pernilongo...esquecer de tudo!... livre da dor... tenho vergonha de mim... a pele arde , coça... nada do que faço vale a pena... o frio corta-me as entranhas... desordem... sem sentido percorro os becos sujos da província...ilusão! ilusão! Ilusão!...não acredito em porra nenhuma... aqui não é fossa mas é merda por cima de merda!... discorde da concórdia que há em você...destrua vossas esperanças...encha meu copo... a farsa engole o mundo...quero descansar...morosidade!


19 – abril - 2005

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

tomo um gole, sinto a brisa do ventilador... há dias não sai nada, um silêncio, um ranger de dentes, um zunido de liquidificador cobrindo tudo, um manto de nulidade que não poupa nada e nem ninguém... copo vazio, blues... reduzo minhas horas de sono... passo ao largo do depósito de corpos e lembro de meu avô... tennho um punhado de palavras, tenho uma página em branco e uma caneta que não escreve... o peso indefinivel do sono transforma meu caminhar estrépito em um rastejar que beira a imobilidade... na esquina diante do esgoto a céu aberto a dádiva é revelada... um mundo de tédio infindo cai, nova dimensão explode, olho de soslaio pro passado, mergulho na bruma e vou embora... cai o pano, a pantomima começa, cadeiras vazias... hoje juro que não esqueço meus óculos escuros, não há coisa pior que o sol, de um verão que nem chegou ainda mas já vem tostando ferozmente, lhe abalrroando em plena manhã... a vida irrompe de minhas veias e pula pra essa merda de universo... atrofia... no escuro, no escuro, no murmúrio, no escuro... contenho minha ira... calos são para sempre... os fantoches começam a melodia, sempre a mesma melodia, milimetricamente as mesmas notas todas noites, enquanto isso, as pessoas fumam, conversam, gesticulam, transitam, riem como se nada estivesse acontecendo... espero a meia-noite como se fosse um bálsamo para as dores que me afligem, é pouco mas é o que tenho, ínfimas horas de descanso, sono leve, sonambulismo e pesadelos recorrentes... vazio... drágeas... cansado... fumaça... entediado... doloroso!!!!
30 - 08- 2007

terça-feira, 21 de agosto de 2007

aquele que muito vê
finda por cego

resvalo em paredes
nado em sarjetas desconhecidas

aquele que muito fala
engasga-se com a própria palavra

culmino no máximo
sinto-me um perfeito nulo

aquele que muito ouve
perde-se no labirinto da orelha

fisgo algo na memória
poeira, rascunho, ilusão!

21 -ago- 2007

sábado, 4 de agosto de 2007

vejo a foto
vejo além do retrato

o horizonte explode

vejo a imagem da imagem
sigo conjecturando

já matei todos os meus botões
e na ressaca de um novo dia

engulo saudade!

sábado, 28 de julho de 2007

fora de órbita...hoje a pocilga é minha...espero, contento-me com a espera...imensa frustração expandindo-se, antes eram águias, agora urubus velam a hora perfeita...perco o equiíbrio.lasco a cara no asfalto. me fodo completamente. é o fim da razão. é o fim de tudo aquilo que acreditei...o melhor é contemplar...pele frágil..estômago ferido...dor de cabeça...quando menos se espera, o belo acontece, irrompe, pula no pescoço e beija-lhe a boca suavemente...sinto o corpo se recuperando...a jornada continua...desta margem, ônibus em movimento, 11:hrs, indo pra casa, percebo o completo descontrole..."fale por si" é o que leio na tela de cristal líquido...na boca de um a derrota do outro...aquela velha sensação de que algo vai explodir retorna...e a palavra é pouca, a sensação é demasiada, um ardor subindo pelo peito, dentes trincando, mãos que se coçam...olhar vazio...interrogações...nunca aprendo a guardar o que sinto...terrível isso de ser e parecer que não é, sub-existir numa pseudo-insensibilidade...nesses dias de labuta e pouco prazer, arrasto-me para o leito com uma dedicação suprema, desejo magnífico de não mais se levantar...não sei mas que vozes ouvir: uma multidão grito dentro de meu cérebro, outra em meu peito, vozes em minha virilha...ficar quieto... ser silêncio...trombose...impotência...nulidade...não sei se aguento a espera...tento distrair-me mas é pura mentira...nervoso...agora já não é mais este que vos fala...
junho/julho 2007
dou um passo. sinto a glória moribunda de estar vivo e ser manipulado...neste exato momento começa a grande merda...ignoro tudo e sigo meu rumo solitário...recuo algo entre o horizonte e a lástima de ter nascido...doem-me as tripas durante dias...um dia é de nuvens e lufadas frias e cortantes, noutro dia é céu de brigadeiro, sol brilhante e brisa fresca e afável...a diária tediosa do ofício quebra-me por inteiro. já sinto os ossos trincarem, os olhos parecem precisar de lentes e a palavra já não é mais fluídica e articulada como outrora...recuso horas de labuta por minutos de descanso...curiosidade extinta...como se nada mais me agradasse...a vida fornica com a morte num seriado de televisão...estorvo, estorvo, estorvo...belas nuvens deslizando, suaves, majestosas e incomparáveis...forma-se uma comunidade em torno da carcaça putrefada e deste feliz acaso alimentam-se minúsculos seres que trabalham incansáveis...cheguei perto do desconhecido e todos os dias me aproximo mais...aqui descartável...ali embalagem que sobe em rodopios ao firmamento...dentro de um número fim-de-vidas querendo alimentar-se do que sobrou da minha...cego retorno ao meu antro...perigo, perigo, perigo...amor longínquo, amor utopia...agora só sensível superficialidade...química...fascinar-se sim, enlouquecer jamais... recrio-me no vazio do ser...

julho 2007
gengiva sangrando...adentro a madrugada sob o signo do trabalho...mil possibilidades para apenas uma vida...coração pulsa enfermo atormentado por pontadas leves e agudas...2° dia do ano...e agora o que fazer?...avião ruge na madrugada fria atravessando o espaço rumo a não sei aonde...sinto que hoje não chega...na manhã de quarta uma delícia...tudo tão frio...tudo tão doméstico...tudo assim, assim...pele grudando...perdigoto salta e cai no canto dos lábios da menina de olhos verdes...chuva fria...quanto tempo estou preso?...será que nasci de verdade? isto que vejo não é uma pseudo ilusão? eu anti-matéria, tudo que é sólido anti-matéria...escorpião sobre o meu peito, o rabo pingando veneno treme...quando estou aqui é ruína...quando estou em qualquer lugar é vazio irremediável...agora sereno...cachorro gane de frio...sono chegando...apavorado dentro da caixa de metal busco uma saída, línguas deliciosas sugam-me por inteiro, mesmo assim preciso abrir este cubo maldito...não aguento mais ouvir minha voz..nem sentir o cheiro de meus excrementos que as paredes engolem...cochilo...olho para a província com outros olhos como se este que contempla não fosse o que se é...vermes sob minha pele...divago em meio a avalanche de sentimentos que é cada novo dia...lembro com pesar de cada gato atropelado diante minha porta...sono chega...é um mergulho sem volta...grite quando for preciso...desligar e sentir o verdadeiro real, desligar e vislumbrar o sonho...
03 - 02 - 07

quinta-feira, 19 de julho de 2007

cartazes pela cidade anunciam o fim
tatuagens que não fiz preconizam minha fraqueza

louvor e luxúria
imantados num mesmo porvir
caio várias vezes do leito
corrompo todos os escrúpulos
acendo
apago
desmaio

o dinheiro passa em minhas mãos
e sujo do que é mais imundo
prossigo
espero o dia amanhecer
pra esquecer da luz
pra esquecer do desconforto

queimo a língua

cartazes pela cidade tentam falar comigo
faço ouvido de mercador, finjo cegueira!

sábado, 14 de julho de 2007

o oriente explode
o povo esquece que é povo
folguedo
as luzes da cenografia
trazem a realidade
aqui solitário
ali dormindo num leito que me traz dor
nesta mesa a palavra me trai
nesta cadeira grito impropérios a esmo
é como se não fosse
diante da máquina fico prestes à loucura
o fio da minha senda
multiplica-se incontrolavelmente
quero a palavra perfeita
atravessa-me lentamente uma sonolência
um querer ir-se daqui
querer não querer
ir sem ir
fincar e flutuar
relembrar
a ampulheta está vazia
o sorriso se quebra
a noite continua

quarta-feira, 20 de junho de 2007

mas na sua névoa
quero caminhar
e da ilusão
extrair o magma essencial

foge mais retorna
num ciclo indelével

quero ver-te
para ver além
distante semeia
perto frutificarás
MISTÉRIO MISTÉRIO
EM BRUMAS ENVOLVO-ME
TATEANDO NA ESCURIDÃO

POR UM INSTANTE
A VIDA FOGE DO ÓBVIO
ONDE? QUANDO? QUEM?

VEJO E NÃO VEJO
E URGE NA MENTE
ÂNSIA, DESVAIRIO, SENTIMENTO

terça-feira, 5 de junho de 2007

o disco gira...criança estupefata não entende ou pensa que entende...sumindo...perfeitamente vazio...resgate minha injúria, enterre num ermo qualquer o que sobrou de mim...eu, o compositor e a cantora de péssima voz batucando e cantando na madrugada...eu e o poeta nas entranhas da noite...nada me separa do que quero...ilusão até 5 da manhã...quantos pensamentos no espaço de um bocejo?...ela degusta a refeição, acende um cigarro e cochila...a privada repleta de nosso excrementos todos os dias...sejamos racionais, vamos pular daqui, vamos descobrir, tentar existir...nenhuma profundidade importa...quero sono para o outro mês, outro dia? sem placidez, sem esperança! apenas deixar-se levar pelo fluxo da maré...uma nova luz, uma nova realidade...a voz do coração se despede do corpo magro que me aprisiona...e agora? eu máquina imperfeita não tenho nada pra fazer...a vida é um erro histórico...de braços abertos...expulso...nada melhora...pulso fraco...quero entregar os pontos...quero um baú repleto de neutralidades...luzes piscam, olhos extasiados, cartões de crédito pulsantes...deixem-me aqui no meio da rua; postes apagados, sombras suspeitas, espero amanhecer...sem voz...a madrugada avança...nervo fraco...histeria
novembro/dezembro 2006

segunda-feira, 4 de junho de 2007

saudade que estrangula
saudade que alimenta
saudade que é pura saudade
distância que massacra
distância que evoca o pior
distância terrível distância
resguardo-me no que está além de minhas forças!
resguardo-me no afã de tua voz
e espero até o fim dos tempos!

4/06/2007

sábado, 2 de junho de 2007

quero estar mas não sei se fecho os olhos e caio na segurança imperceptível do sono
o galo canta
o dia já vem chegando
são horas que voam
é triste ter que acordar, ter que ir sem saber, sentir sem sabor
vômito...
tremedeira...
desespero...
sinto coisas estranhas
fujo mas não adianta
relembro e sofro
desejo devora tudo
a carne sofre
boca amarga...
tensão...
crise...
despencando
perdendo o controle
cada dia o passo é mais rápido
sinto a respiração falhar
vem como quem não quer nada, devagar, sorrateiro, engolindo, mastigando
subo escadas e desmaio!

sábado, 26 de maio de 2007

representações perfeitas, carne e sonho, infelicidade e desilusão...partes do corpo estrebucham...o calor oprime...sem sono...amanhã contemplarei uma fila fúnebre...derrota...culpa...círculos...enorme tristeza vindo...o presságio é: morte...o som é de sirenes...solidão...estou livre?...o que leva a mim mesmo?... no fim das contas é só uma perda a mais, sem sorrisos, sem planos, conjecturas, aconselhamentos, nu, desprovido de qualquer virtude, pura ruína...imaginação morta...morto...a luz do sol indo...brisa noturna...aqui na minha sala ergonômica, aqui que não me satisfaz...lábio rachado...do ouro lado rio, luzes pequenas, ali no muro as luzes de fim de ano enfeitando com doce ilusão estes últimos dias de 2006...de ressaca da vida arrasto-me pelas beiradas da cidade-abismo, sinto repúdio de mim por não ter coragem de ir adiante e dar cabo deste empecilho cansativo que é minha senda...no auge do sonho sou acordado por batidas na porta, levanto, vasculho e não há ninguém, talvez fosse um eco de um outro sonho dentro deste em que voava agarrado à uma asa de um espaçonave num futuro distante...lembro de agulhas sobre a pele...lembro da infância...sinto o quanto é péssimo ser grande!
out/nov 2006
vasculhos nos recantos da memória...algo queima nas entranhas completamente perdido...marionetes são mais interessantes que pessoas...onde esconderam este magnífico fato denominado "vida"?...Mozart na na manhã fria é uma delícia...barulho de carro desgovernado...nunca olho para atrás...acho que vai dar certo...a crise vem, lambe minhas mãos com riso maroto...garras retraídas...a luz do inverno se faz presente por dois dias...não há o que fazer...o contato vai desaparecendo...escrevo na névoa do mofo...roupas espalhadas...moscas...hipnose..tento um descanso...a batalha piora a cada dia...felicito o apático...perco o controle do meu corpo...lembro coisas que nunca vão acontecer...não tem jeito. tudo sempre é imperfeito, fatos desmoronando, fotos que se apagam...por todos os lados perigo, nunca baixe a guarda, músculos em riste, dedos no gatilho...o fim de uma fase reverbera em vontade de inexistência..o ínicio do dia é a fomentação de um núcleo de dores terríveis...diante do espelho apenas mudez...aqui eu, minha vitrola e os discos em perfeita harmonia...olhos cansados...o que sinto já não corresponde a mim, parece outro encarnado, mas sinto como se fosse meu, mesmo dentro de mim existem milhões que desconheço...preciso sumir...
out/nov 2006
me dê a mão, estamos próximos do fim...ansiedade, decepção, tédio...devolvo fogo...sêmen na fossa...sou um fantoche de carne e osso...me ofertam a morte na noite de quarta-feira...sorrio...esqueço e lembro ao mesmo tempo...terrível mesmo é estar vivo...nutra a minha dor...tédio lambe minha glande...vento frio corta...um sono arrebatador corta...ouço máquinas indo e vindo...onde estou e o que sou agora?...preciso de um canto pra dormir...cansado dos grilhões...nunca última página, nunca último trago...máscaras flutuam...derrame uma palavra na anfôra do meu ouvido...sem sossego...garimpo dores em meu ventre...pequenas ninfas saltitam no fim-de-tarde...arranco cabelos brancos das fossa nasais...a rotina engole o prazer o, as coisas, as visões...existe uma solução?...me dê um motivo para o riso...o passado se repete...no limite, sempre no limite...imprimo uma falha, sinto o declínio, as forças indo embora, corpo desobedecendo, vejo o delírio brotando, cansado fecho os olhos...sonhs escuros...ignoro para sobreviver...chega de perguntas...pedradas..ignoro para sobreviver...pedradas...pauladas...menosprezo...de agrura em agrura vou montando meu mosaico...as coisa não mudam ou as pessoas não mudam, não fazem o mínimo esforço...agora é a sua vez!
urge a pressa no coração aflito...membros espalhados no asfalto...estamos aqui pra nada...esqueço minha âncora...a palavra revela, mutila...tenho um segundo pra pensar, uma vida inteira pra nada...outrora seres vagavam, agora tudo é um transeunte sedento, faminto de qualquer coisa...veias vazias...a esperança é uma despedida eterna...o marasmo se prolonga, em silêncio suporto todo o martírio do ser na carne...pura loteria...espero e não chega...sombras na vitrine...desampontamento...sou roubado...máquinas me chamam, sussurram em meu ouvido, vão lá no fundo do cérebro...tenho resistido aos códigos indecifráveis...palavra ferve...a tarde vai cálida e fresca...quase tudo em ordem...refaço todos os passos, cada lugar, cada detalhe...visão embaçada...finjo felicidade...permito-me um mergulho na descoberta...tragam minha máscara...sangue quente...estrume...não há mais dor...nada se repete...olho pro infinito...cauterizam meu nervo, a insensibilidade se extende, por todo o corpo, pareço flutuar. todas as coisas lentas demais...quente, abafado , escuro...aquele sábado foi de alegria e cegueira...desembarco minha dor nos becos da cidade...o esgoto é meu espelho, onde regurgito tudo o que me assombra...meu leitmotiv é a desgraça de uma ressaca num dia cáustico de verão...
09-2006
pouco tempo é o que me resta...nenhum tostão nos bolsos...anestésico...criança chora, velho sorri...cascas de amendoim...preciso de solidão...desilusão...falta sempre um minuto pra alguma coisa...falta pouco pra nada...um trago e a vida continua...o instinto persite forte elento no silêncio da madrugada...pernilongos...desprovido de armas sigo no automático incompatível a tudo...na tortura da insônia tento um mergulho...seja bem-vindo a escória e todos os seus asseclas...pancadas de chuvas...gana de ir à porta e perder todo o controle, deixar o vento gélido entrar, alagar tudo, acordar todos e gritar num ato último de liberdade...vultos...memória-osso, saudade-fotografia; não resta nada além disso...a tv desligada tem-me dentro dela, quando ligo-a. sou expulso de volta pro real...amor extinto...amanhã dias de víboras, veneno pingando na mesa, olhos ensandecidos..sublimação morta...agora é tudo mecânico...neste exato momento na primeiras horas da manhã de sexta-feira sinto o desgosto vindo e conquistando cada centímetro do meu corpo, fincando bandeiras de remorso em minha moleira, abrindo valas de indignação em minha virilha...e pinga eternamente massacrando cada vez mais...preciso de sono, ele não chega...talvez contemple o raiar do dia...tudo vácuo...insalubre...

setembro - 2006
quem traça o destino?...volto ao âmago da insatisfação...quando retorno pra casa contemplo no asfalto meu felino mais que esmagado pela força, pelo peso do carro, os olhos saltaram das covas oculares, línguas e dentes numa massa indefínivel...de quem é a próxima linha?...no outro dia urubus nem esperam apodrecer, desfrutam numa algazarra as vísceras do bichano...atravesso a fronteira...não há nada de impressionante...céu azul...brisa...carros...após um revirar de páginas, a constatação do vazio...a palavra vem do mais profundo...entendo cada coisa e o segredo dentro delas...quem coloca a primeira pá de areia?...as peças do jogo estão danificadas...aqui nas paredes brancas ouço a sinfonia do mundo lá fora...queria um sono pra vida toda...piso no esgoto, pé afunda na lama, sangue...nada é como eu quero...tudo é desalento...é uma saudade de doer em tudo...tenho sede mas não quero água...nunca vejo nada...nunca ouço nada...ponta dos dedos dormentes...café, pressão alta, paranóia...ligue o motor, vamos embora, encara a pista, saber se a liberdade existe mesmo...chego em casa, despenco na cama, no outro dia acordo e novamente tudo se repete...sinta o gosto do amargo...veja a ferida pingando...incansável, tedioso, tedioso...e na confusão dos meus sonhos não entendo nada...

sexta-feira, 25 de maio de 2007

não consigo olhar para trás...e neste exato momento dói tudo...não consigo lembrar...se aqui é o fim da viagem tudo está em desordem...engulo farpas...a música vai e volta a cada dois minutos...eternamente sangue...velhos sapatos debaixo da cama...dói o tornozelo..janelas, janelas e escadas...fibrilando, pura tensão...moedas tilintando no chão...desespero hoje, amanhã talvez liberdade...limpe os pés...deixe minhas vísceras quentes...minha língua dança solitária no ar...onde está a tigela de doces?...bombas, bombas, ogivas para todos...esta página é uma página do passado...letras escorrem pela superfície...a vida real é mesmo uma grande merda...visão turva...placas hipnóticas...tolice por todos os lados...migalhas e um batalhão de formigas na cama, moscas vão e vem...desmonta e quebra e conserta e desmonta de novo...quem define as consequências?...não consigo andar com as próprias pernas...sou um vacilo a cada instante...tento esquecer o sono...a cada dia respiro pior...amanhã logo cedo estarei de pé...no meio da noite sinto saudades dos longos dedos brancos que acaricavam-me com magnífica força...tempestade...minhas entranhas tremem...sinto tudo ir embora....cada evento é uma enorme despedida...será que sou livre?...facetas disso e daquilo...mudez...
numa página do passado a palalavra de três amigos...nas paredes rastejam musas e surgem formas...antes de ontem foi uma noite terrível...parecia que ia dissolver...na cozinha esposa e sogra conversam sobre as mazelas do cotidiano...daqui a pouco retorno ao meu posto de escravo...cansaço, cansaço, apatia...outrora a lombra era a única fuga...onde estão as chaves da bonanza?...fuligem...a boca cospe mil e uma coisas...o ventilador treme, quase pára e volta a girar a hélice...a cortina balança, parece ter vida...vou desumanizando-me...quem dera ser um objeto...finco os dedos na minha carne e nada...fome, dor, anestesia...liga, liga, desliga...respiro fundo, imagens difusas; uma rua de Santa Tereza, garota nadando no Arpoador, ruas de São Luís do Maranhão...síncope...a boca não cessa...aqui, aqui, longe...os brinquedos foram embora...o riso perdeu o som...todo dia é uma doença nova...no meu sonho alguém dizia "deixe um rastro de aspirinas no caso de você esquecer o caminho"...lembro de manhãs-lexotan, tardes-lorax, noites-rouphinol...esqueço, esqueço, sorrio...sorrio, sorrio, esqueço...
agosto 2006

segunda-feira, 21 de maio de 2007

mais uma vez o sono vem roubar-me do real...a gente conversa e não se entende...insisto no passado...pequena prostituta desliza na mesa...não quero dormir...longe de tudo...insetos em minha pele... não sei o que quero...ir embora sem olhar para atrás!...issso aqui está um verdadeiro inferno...não tenho raça...a foice silva dois metros acima da minha cabeça...as veias do pescoço pinicam em dor...fantasmas...álcool ferve nas veias...uma linda garota estava apagada em minha mente...a casa ameaça cair...muita confusão...libido distante...não sei mais o que me dá prazer...não tenho memória sólida...meu sangue voa nas asas de um pernilongo...esquecer de tudo!...tenho vergonha de mim...a pele arde, coça...nada do que faço vale a pena...o frio corta-me as entranhas...desordem...sem sentido percorro os becos sujos da província...ilusão! ilusão! ilusão!...não acredito em porra nehuma...aqui não é fossa mas é merda por cima de merda...discorde da concórdia que há em você...destrua vossas esperanças...encha meu copo...a farsa engole o mundo...quero descansar...morosidade!

19-abril-2005
vejo a grande nuvem cinza...imenso presságio de frio...dito e feito...perco uma prenda...a beleza é perfeita poque é utópica...rã vibram a gaganta anunciando mais chuva...e o dia foi lindo e imperfeito...grilos compõe o lento deslizar da noite...inasatisfeito...ela enclausura o medo no medo inconsciente de uma mala...minha cabeça ferve...não sei o que será de mim daqui a uma semana...relapso...uma linda oriental derrama flores que traz em sua saia num rodopiar majestoso e ritualístico...meu tempo se perde nas contas de um colar que penso ter perdido..quem vai?...eu?...eu sempre fico mudo estupefato com lágrimas represadas quase sólidas sem nada poder fazer, vendo o mundo degringolar...cachorro agoniza na calçada às 10:30 da manhã...eu?...apenas ouço tua voz indo embora...a grande nuvem desiste...agora são gotas no telhado, pernilongos, formigas voadoras, rãs e frio...meu coração dói, tudo urge descontrole...impotência...não entendo a insana alegria de meus sonhos...sem sono...eu?...eu sempre espero...e nada é como o previsto...a vida é cruel...incrível mistura...no burburinho da feira tantas cores, cheiros, texturas...quero entorpecimento...quero congelar os nervos...tô virando merda líquida rumo ao ralo...
não ha música na manhã de Domingo...ontem esperei, esperei e nenhum retorno...recortes de sonhos...subrealidades invadindo minha imaginação...chuva...tudo estranho...inexato...as paredes do buraco estão mais lisas...volto à vida com pesar...ainda resquícios, ainda fantasmas que rondam, falam, azucrinam...inútil, opaco, vazio...agora mormaço abraça a pele...sinto-me péssimo...ontem fui invadido por uma doce energia...esvaí-me em sono...às vezes a morte é a melhor das saídas...perco a felicidade num quebra-cabeça de picuinhas...a placidez magnânima que me acalma vai embora nas asas poderosas de um monstro metálico...tantas ânsias fustigam-me o peito...penso nos brotos de puro delírio brotando do esterco na pureza do campo...ano passado as montanhas do Rio de Janeiro surgiam como um encanto diante dos olhos...daqui há uma semana a cidade maravilhosa me roubará mais uma vez...não consigo ouvir...o pensamento tal qual um espelho despedaçado revela milhares de formas...extrema insignificância...algaravia incontrolável de emoções...durmo no sofá esperando que a voz suave, firme e sensual, quase um silêncio, venha ao encontro de minha consciência, mas não vem...as notas se repetem...a diferença é subliminar...hoje eu espero novamente...hoje eu ligo novamente...não adianta mentir...não vale a pena se enganar.
um copo atrás do outro...cego...vou pra onde não sei...caminho sob o sol escaldante da manhã...cocaína...bolso vazio...fígado podre...espero não me fuder um dia...todo o corpo dói...vida miserável...mão trêmula...vômito...sono...e o futuro?...vida nova chora nos braços de minha avó...luz insalubre...cada gole uma mancha escura reaparece e toma conta...o mundo ferve lá fora...aqui na ressaca espero que a agonia vá embora...não posso...cabeça latejando...últimos centavos por mais uma dose...doença...cansei de tudo...totalmente sem controle...onde está o amor?...onde está o ódio...tédio, tédio, tédio...a menina sorri e louva a morte...vou ao banheiro e quando volto as mesas estão vazias...quebro uma promessa...Ororo eleva-se numa imensa nuvem e vai embora em meio à ventania, raios e trovões...o que eu tenho?...nada!....o que eu sou?...um covarde!...e o amanhã?...juro que não sei de nada!...será que a vida é líquida?...cada dia o veneno é mais forte...fel...completamente imaturo...eu sempre estrago tudo...acabou a magia das coisas...sinto-me um bastardo...não tenho nada...nada!


2-abril-2005
a doença volta novamente...páginas que não consigo decifrar...apaixono-me pela distância...você se materializa em meio à bruma da monotonia, você acredita em mim, você ouve minha exígua voz, você compreende minha fraqueza, você desfila suas mãos em meu dorso, eu me sinto feliz...a vida é uma doença benigna...aprender a vida é curar-se dela e esperar sem temor pela morte...saio na noite...sem rumo...apenas dor e saudade...cansaço...três dias longe de tudo...no retorno ao mofo um delicioso passeio...sala vazia...ressaca...aos poucos tudo retorna ao normal...pesadas nuvens sobre a província...cada dia mais fascínio...esperei e não vi tua chegada...água desaba em milhares de gotas...tempestade louvando Tempestade...não tenho medo de tua distância...você aniquila todos os meus medos...todos os espelhos quebram em uníssono...reviro meus trapos...ouço uma velha canção...dói tudo...sinto um mar de ternura invadindo-me...a porta da masmorra range...vômito...a luz do dia pertuba e machuca...confinado no leito esperando a cura...a porta se fecha...a chaga pulsa às vezes dolorosa, às vezes dormente...sufoco...apenas lhe peço que não se esqueça de mim...preciso de sua letra, de sua voz...fecho os olhos em puro devaneio e escuto tua esplêndida voz!!!
fendas magníficas abrem-se na realidade...inacessível possível...poder se esvaindo...sem controle torno-me uma imensa falha...armadilha...não, não serei idiota até o fim...crepúsculos maravilhosos...a noite me engole nu, a noite reluta...o tempo voa...navalha...tudo é possível...não adianta se esconder...nenhuma dessas palavras são minhas...nenhuma dessas lembranças são minhas...coisas vem, me surpreendem, me roubam graciosa do tédio...o que fazer?...o que fazer?...a graça maviosa do corpo nu, do negro corpo despido, da pele suave de sabor inigualável...logo após e quase sempre confusão...luz do dia...coração minado pela surpresa...fome!...luz da manhã de sexta-feira, 18 de maio de 2005!...quase não durmo...e a matraca que não cala...ei! essa voz tanbém não é a minha...sou um cavalo de mim mesmo descontrolado e doente...amanhã também...amanhã e sempre...Billie Holiday chora na tarde cáustica...agora espero!...merda é não saber o que vai acontecer...o que me irrita é o musgo da minha alcova que quase não me larga...espero!...as horas pesadas como um paralepípedo amarrado no pescoço...desgraça! como sou patético!...tu estás além da carne...eu estou além de nada!
18-03-2005
frágil...carótida ressecada...suspenso...manhã extremamente quente e luminosa...atravesso a vida com um espinho na garganta...ausente...estou sumindo diante do espelho...cicatrizes brilham...abissal...preciso de leveza...a paixão percorre veloz e voraz nas veias...trombose...ignoro minhas palavras...meu vernárculo é pobre...o passado atesta a fraqueza de estar vivo e não ter controle...dai-me o vício...instiga-me...não quero estar aqui...quero mesmo é estar aí!...escuro...sede..a água é pouca...boca amarga...a seiva não basta...estômago ecoa...nunca vi tua letra mas sei o sabor do teu verbo...pesado, tento me mover mas sem êxito...suor frio...língua pesada...todo dia um pontada no peito...face esquerda gélida...ombro esquerdo repuxando...risos na mesa ao lado...devastado pela existência respiro mal e não enxergo bem...nã tem jeito...solidão me cerca, reverbera seus ecos nocivos...medo...hoje o prato, amanhã o caixão...o bólido desliza pela noite conduzido por Ororo...volto pra casa e mergulho no sono querendo que o próximo dia seja breve...uma longa jornada...canção sem alaúde...a vida está repleta de segredos...fico soturno e não penso no que faço...correnteza feroz...dor
nova infância...nova vida!...ruas vazias...2 tiros de escopeta na cara, depois ela é arrastada até o alto do morro...nova ilusão...durmo na cama de um ex-moribundo....poucos amigos...muita falsidade...milhões de vezes imagens de um lugar que não acabou e que me espera...33° gato que morre atropelado defronte minha casa...pseudo-consciência...beijo as vísceras do perigo na tarde de sábado...súbita tristeza...impotência...sinto-me devastado...34° gato que aparece e dorme cálidamente no sofá...sou meu algoz...sempre tenho feridas...novo jogo...velhas derrotas!....engulo todos os copos, dou vexame, caio na sarjeta, falo muita merda, depois despenco e durmo indefeso...ressaca devastadora!...ainda há calos nas minhas mãos...o sol avança...feliz por não está triste com o fim de tudo...neutro...nada utópico!...velho e insuportável...ser esguio por entre sombras, leve como uma pulma, liso como limo, sinuoso tal qual serpente, comer todos frutos sem se apegar...o disco acaba, ora bolas, ponha outro, afinal são tantos na estante...quisera não ser eu, não ser esta tolice de personalidade...a voz da ilusão liga pra mim nas primeiras horas do dia...perguntas bobas...a manhã indo embora ao som de Art Blakey and the jazz messengers...não sei de agora...não sei de amanhã...esqueci ontem!

quarta-feira, 16 de maio de 2007

ali na casa de tolerância a vida pulsa em delicioso caos...café amargo ao meio-dia...rápido...aqui sol, lá um bloco de nuvens...são dias iluminados demais...sono...o som atravessa as paredes...hoje é dia de desnutrição...apatia envolve as horas...onde está a vitória??...pernas doem...olho esquerdo treme...não tenho dúvidas sobre nada....loucos mergulham na noite...lá fora tá cada vez mais estranho...esporrar, esporrar, dormir...quero pílulas de conforto, carinho, lucidez, auto-estima e bem-aventurança...de vez em quando não entendo minha letra...morte, morte, liberdade!...carros de propaganda enchem o saco...poesia distante...urina canina...no meu quintal uma sinfionia de cantos enjaulados...vendo pedaços de minha alma por qualquer sensação...sou uma privada fudidamente receptiva de toda a merda insuportável do cotidiano...preciso ser mais rápido que o ponteiro...preciso ser qualquer coisa além de mim...sem música...tempo, tempo, tempo...vício, vício, vício...deito-me na cama, pego minhas amarras e preparo-me para um sono convulsivo...longe de mim reuniões familiares, pessoas unidas e sorridentes, todos embalsamados até o fim dos tempos... espero e nunca chega...a hipocrisia caminha por debaixo da pele...não posso ir além, não posso retornar...estar aqui é o que me resta...

julho/agosto - 2006
música que não é música...rapidez extrema...sinto cada instante como se fosse o último...goteja, goteja, goteja...esquarteja na próxima na cena...não pára...fotos antigas; ilusão do passado materializado para o porvir...lâmina entra na pele, sangue sobe, pulsa...cansei de ser este aqui...a máquina me transporta através da cidade...fraco, fraco, fraco...sou um alvo fácil da ilusão... cegueira...entropecimento brutal...na verdade queria acabar tudo agora...a pressão sobe...falar, falar, gritar...a porta se fecha...lá fora o sol caminha, máquinas roncam, as veias multicoloridas da cidade pulsam caóticas...o ponteiro não cessa...aqui a luz é a mesma...vômito de sangue na calçada...aqui apenas o pior...minha face formiga....poltronas vazias...a doença reina superior e sempre vence...isto que sai agora é o mínimo possível pra manter-me são...na fantasmagoria do espaço virtual flutuo ao sabor do vento...há tempos sem música...a tv dissolve a dor da existência em derrame cerebral...silêncio...o corpo luta pela cura, a ferida resiste...aceite a sentença, esta é a sua lâmina, quando chegar o momento não recuse, não resista, pois não tem escapatória...

julho - 2006
nas primeiras horas da manhã..olhos fragilizados pelo alvorecer...tantos detalhes, sinto-me impotente...homens dependurados no caminhão de limpeza...café...pão com queijo...lixo no chão...flores esguias, carnudas...longe...a luz relete enaltecendo detalhes até então escondidos...tento não esquecer mas esse que escreve nunca será aquele que irá lembrar...brisa fria de início de inverno...criança tosse..caixas metálicas cospem e engolem gente...pétalas de pura volúpia pendem de um lado pra o outro ao sabor do vento...ali no outro lado da estação com o olhar tomado pelo sono observa-me intrigada...moscas sobre o pão com requeijão...nada melhor do que contemplar...o rio corre incansável em sua eterna imobilidade mutável...reencontro rápidos...a velocidade aumenta...a felicidade vem para poucos...o lixo não pára...fluxo lento...aqui uma fenda se revela...o passado diante dos meus olhos e não posso tocá-lo...na ponta dos dedos ainda persiste o pólen da flor negra...o homem com a vassoura trabalha lentamente...o sol avança...a menina aquece o corpo na luz solar...um espirra...a realidade vibra dentro de mim, atravessa-me deixando em minha carne um sentimento de pura estupefação...mulher com arma na cintura...o sem-teto seminu acorda e olha ao redor...vozes...torpor!
ontem frio, explosões, fogueiras...retiro-me do mundo...minha vida é uma piada grotesca...canção morta...deixe as máquinas ligadas...o menino tropeça, cai, desmaia e tem a cabeça esmagada por um ônibus...deflora...antes perfume, agora fedor...engula suas excreções...o rídiculo reina...até a simpática ilusão de estar livre sem sê-lo é por demais dolorosa...minhas grades são minhas convicções...lençol pesado...falsa guerra...mutilados reais...numa palavra toda a definição da vida; mediocridade!...hoje quente, pés gelados, tédio, questionamentos vazios...longe, tudo longe, sempre inalcansável...da janelado do segundo andar vejo a rua molhada e semi-deserta...ao longe o eco obscuro da raça humana tonitroa...sono...um dia, uma madrugada com intensidade, velhos amigos e basta...ás vezes penso que esqueci tudo...as portas são fundamentais...meu copo nunca está cheio...boca dormente...não consigo me concentrar...atravessar a massa nauseabunda da realidade e ter nas mãos a dádiva suprema da criação...mudez...surdez..cegueira...sem vontade...sem gana...não acreditar...não tentar...a pele coça, minhas unhas sujas de sangue me lembram o passado...nervos podres...sem ritmo...sombras...vamos! depressa! todos ao trabalho! vocês estão mortos!
24-06-2006

segunda-feira, 14 de maio de 2007

o olho treme...mesmo na doença o escárnio prevalece...angústia voraz...um noite vazia e poema...na câmara mortuária sinto minha face esquerda congelando...Walt Withman me cochicha maravilhas em meu ouvido...e sente e vibra na manhã de domingo...ás vezes a vida insiste em ser uma ressaca...a palavra dilue-se, minha verve entranha-se no real...dimensões dentro de dimensões...a sexagenária agarra-se a grade e vê a vida passar com olhos tristes e embaçados...páginas no chão...anuncia-se uma nova era...sou completamente imperfeito em tudo que faço...com o inverno vem o doce aroma de putrefação...gordura avança...chão frio...que venha a solidão e todas as companheiras...minha casa fede...nada merece atenção...todas as estruturas soltas...a vida treme...a vida fenece em minhas mãos...nuvem cinza nunca passa...ferrugem...tenho nojo do que como...o gato boceja e procura uma posição melhor pra dormir...venha e me faça desaparecer...a palavra é pouca...autismo...temor...moscas...urina...peixe podre...fossa estourada...cães ladram ao longo da tarde...uma pena de galinha vai pra lá e pra cá acariciada pelo vento..formigas...a moto-serra não pára...inexistência! inexistência !inexistência!...tudo ao léu...sangue escorre da boca...cicatriz...caos...
junho de 2006
todos os dias ajoelho-me diante do esterco humano...todas as noites são de pura agonia...nariz escorrendo...um amigo no bar é alvejado por uma saraivada de balas, ali sentado , morreu sem saber de nada...minha voz ecoa na noite...um embrutecimento visceral surgindo, lento, voraz, tomando conta de tudo...um coração de plástico quase murcho flutuando na mesa de mogno...quem lembra de quê?...minha memória é uma sucessão folhas brancas...todos os instantes são de puro louvor ao tédio...desgraça, desgraça, desgraça...catarro...fuzila, fuzila, fuzila...tem pra todo mundo...dá e sobra...pernas doem...muito sono..funéreo...da vida quero muito pouco...tosse...completamente fraco suporto o peso cruel da vida...tantas janelas abertas...pesadelo...agulhas fincadas no peito...daqui a pouco é amanhã...insatisfação...frio, gélido, morto...desbravo o mundo com sutileza...paredes mofafdas...hoje não tem brincadeira...ninguém tem poder...hoje é resquício de algo inexplicável...amanhã neurose...amanhã cegueira...amanhã ruína...amanhã caixão...amanhã pesar...compre sua cova e sorria...o passado lambe minhas entranhas e sorri...agarro meus trapos...esqueço minhas raízes...só...beleza morta...vida fútil
tudo bate em mim, atinge pontos nunca explorados...o som amplia-se e penetra...arrepios de pura emoção vindos da tv...sou traído pela vida...angústia...manhã nublada...uma facada no lombo e tudo se acaba...sinto um peso horrível me puxando...revolta natimorta...palavra espalhada pelo ermo...desdém...agulhas..ontem um comichão, um mar de veias pulsantes, um tremor assolava-me o peito como se algo novo estivesse prestes a explodir...venham até a mim e digam qualquer coisa...trincando os dentes...fraqueza...inexistência...reverbera um som indefinido...caverna...viver é ter fronteiras...todo dia um novo muro...chuva fina...claridade machucando os olhos...por um momento, um lapso, a eternidade de um segundo, penso estar um pouco feliz, mas, acaba e volto ao mundo cruel que tanto odeio...pulso inchado...feridas cicatrizando lentamente...seja estúpido...engulo espinhos com facilidade...cafetão...resignação...sem energia nenhuma...fincam os dedos na carne...cego...dor de cabeça...acordo no meio do dia quase morto de calor...percorro a cidade...quase não encontro o caminho de volta...não sei, não sei, não sei...alguém mexe na maçaneta...fumaça de cigarro...irra...descontrole...grandes nuvens banham a cidade...acordo...sofro...
por todos os lados são limites...às vezes penso ter saído da pocilga...o domingo é pura luz mas fecho as janelas e as cortinas, escureço meu mundo...quero um novo mundo...compaixão é uma morada a sete palmos...cuspo no espelho...desejo ser normal...minha palavra escorre, desliza pelos liames da realidade...cupim avança...daqui a alguns dias volto pra caixa ergonômica...face tremendo...pequeno tumor na côxa direita...entendo todas as diretrizes mas são como espinhas atravessadas na garganta...pego a menina pelo braço e digo para se acalmar pois o caminho será longo e díficil...minhas mãos me acalmam e me enfranquecem...mue corpo é pura erosão, quero riscar meu corpo...ser o que não posso ser... ter outra voz e ser novamente aquilo que era...palavras ao léu...foormigas passeiam ordeiras dentro de um pão dormido...peso muito peso...daqui a pouco brocas perfurando o osso...é incrível como a beleza tem várias facetas...nuvens cinzas pesadas quase acariciando a terra...pessoas sumindo...perco-me na alagaravia das coisas...uma parte de minha alquebrada essência padece em esmorecimento...universos paralelos...crueza...a noite que me espera é grotesca e repleta de peso...quem me dá o empurrão para o próximo abismo?...tudo é uma falha imensa...sangue desce...ácido...mãos formigando...

domingo, 13 de maio de 2007

língua amarga...palavra que escorre...mãos amarradas...infância retorna...corpo não aguenta mais...sol, sol, sol...uma coisa puxa outra...sem nervos...criança pede esmola...ressaca...a vida indo embora, indo pra não sei onde...creio na dor...olho no lho...pancada no osso...motor roncando...goteja, goteja, goteja...mais uma vez o portão é aberto...língua pesada...qual é o seu verdadeiro nome?...realidade funesta...cadê minhas armas?...passos na escada e não é ninguém...dentro de mim um silêncio de mil vozes...sem paciência...ontem foi puro prazer...nunca descanso...dor de cabeça fina...amplamente só...cuspindo fel...admoestando todo o meu corpo...não sou bom de contar histórias...nego toda a existência...reviro minhas cicatrizes...insisto no sentimento...meu caminho é de lama repleto de cacos de vidro...dentro da casca é melhor...de repente silêncio...conjecturo cerca das coisas que flutuam deliciosamente dentro de minha cabeça...joelhos doloridos...pra onde vão tantas pessoas ao mesmo tempo?...o que sentem cada uma delas?...esquisito...preguiça...quero sempre e mais forte...o mundo quer me engolir...meu reflexo é triste...tantas perspectivas...nauseante...monto num cavalo de aço resfolegando chamas e tonitroando, solto meu último fôlego num grito tenebroso e gutural, lanço-me nos braços cálidos da noite...
abril - 2006
o inferninho nunca esteve tão quente...a cidade defeca no rio até o fim dos tempos...sinto a sorte do corpo esmorecer...olhos vermelhos...nunca há semáforo em minha estrada...ali atrás caio perfeito, levanto-me e conserto...nuvens pesadas aproximam-se lentamente...as coisas parecem ruir de uma hora para outra... aqui brisa fétida acaricia a carcaça extenuada...tarde vazia...cansaço arrebatador...ainda sinto o gosto de carne branca na boca...leio, leio e é mesmo que nada...a jangada flana na maré seca ao sabor do vento...mormaço...não sei do que será minha vida...as meninas dizem up-today...o pirralhos dentro meu coração gritam escárnio, voracidade...o bafo lânguido da doença repousa em meu tórax...uma garça de alvura impecável atravessa a cidade...completamente inepto deixo-me levar por uma avalanche de pensamentos que só aumenta a incapacidade de reter a palavra na página...às vezes qualquer coisa é bom...tem alguns dias que nada presta...bocejo...não fazer nada, não ser nada...o verme que há em mim corre por nécrópoles acordando todo os fantasmas...na tarde nublada penso em dormir...espero a verdadeira vida e ela nunca chega...a cada peça que cai do tabuleiro engulo seco...as unhas esquálidas de Hela arranham o vidro de minha janela...o sol se vai em meio a uma cortina de chumbo...brisa de fim-de-tarde...fogo
agora é um flash-black, um retorno ulterior ao âmago da vida...não quero pensar...a voz no telefone é fria, distante e triste..o que me resta são cacos... não entendo a felicidade...na mesa ao lado os talheres trincando...quando fecho os olhos vejo-me diante de uma piscina imunda repleta de sapos e dejetos humanos...minhas unhas sujas me envergonham...não quero felicidade, quero tranquilidade...limpo minhas mãos diante da vida árdua que se eterniza...caústico...um dia vazio, uma existência oca, um sono mortífero...porquê não consigo ficar calado?...vibro milhares de vezes mas sinto-me parado, quase morto...uns viram a folha...sonhos terríveis...alguma satisfação em quê?...a tranquilidade não mora em meus olhos...durmo um sono recortado de preocupação...tudo são dimensões pessoais...o tempo voa rasgando minha face...a idade massacra minhas juntas...língua amarga...olho o auto-retrato de uma amiga e fico pasmo diante da perfeição de traços e sombras...é bom ouvir a risada dos amigos...na sala branca chapada de fluorescentes folhas em brancos são preenchidas...destrincho minha dor em partículas tão diminutas que não consigo ver...sinto saudade da ignorância de 28 anos atrás...como qualquer coisa...sempre é um vazio, sempre uma lacuna, sempre uma fenda...mais um dia, mais um grilhão

18-03-2006
xícara de café...o mundo em destruição...a surpresa de 6 tiros e você já não está mais aqui...a estrovenga passeia alimentado-se de corpos...a noite anterior foi de deliciosa trovoada...nuvens caregadas flanam sobre a província...pressão altíssima...velocidade extrema...mesmo dormindo não consigo descansar...cães ladram na noite...a face do morto agora expele sangue peças fossas nasais e pelos ouvidos...o que define a vida?...diante da página sou paralisado por uma torrente de imagens..completamente infeliz preparo-me para enfrentar a noite...amanhã a sala gélida de estranha labuta estará um pouco mais calma...meu cansaço é desrepeitado...vou embora e acalmo-me diante da máquina...onde forjar as engrenagens para uma nova essência?...ânsia de vômito...tudo se repete... fogo que percorre as veias...outro fenece no escuro a pedradas...onde vivo a morte sorri em cada esquina...quando vejo cicatrizes na minha pele sou arremessado numa dimensão de pura repugnância...calor...vejo amigos inalando lixo...pedalo pelas ruas do bairro num Domingo, tenho a impressão de estar num cemitério, tamanha solidão jamais vista...parece-me que o fim é chegado...nasci só, morrerei só...minha mãe tosse...gotejar incessante...adeus

13-03-2006
escreva pra não morrer...esqueça pra não ruminar...venha dê-me a lâmina não aguento mais...o que quero é muito confuso, porém, é sincero até o osso...minhas vozes adotaram a mudez...estou completamente só diante de um iceberg flutuando em uma praia africana...vomite para lembrar...lágrima desce do olho...a foice ronda cada vez mais perto...sem sombras...disfarçar só piora as coisas...eu senti, não quis acreditar...sou um tolo...minhas horas de vida são parcas...deixo a cédula...perco a alma e tudo mais...tamanduá abraça...quando acordo é pura merda...minha herança é a dor...ouço a voz de Caronte em meus delírios...agora odeio todas as fases do dia...o disco gira sob a agulha, alivia um pouco, mas ainda dói...sinta pra falir...hoje é sempre ontem...nego tudo...assumo minha culpa de inocente...desfaço os nós que me dão com lentidão...minha casa é um presídio chamado "liberdade"...não consigo salvar minhas tralhas, não consigo chorar, não consigo ter calma...não tenho nada...completamente fragilizado...sentado no sofá esperando a comida aceito a morte...quero nuvens o ano todo...bruma, bruma, bruma...risque qualquer coisa pra não enlouquecer... rasgo minhas memórias...queimo minhas virtudes...aos poucos o monstro vai nascendo...é triste mas é fácil, aprendo rápido...o lodo avança rápido em minha pele...vou-me