segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Este é o mês das condolências. Corações repletos de ternura. Néons piscando incansavelmente. Mensagens de fraternidade. Uma leva de seres iludidos numa hipnose de cores fortes. Natal sempre me deprime. Lembro de me sentir profundamente sufocado com o arroubo dos parentes chegando. Eu do alto de minha inocência quase morta querendo que acabasse o mais rápido possível. Que as portas se fechassem e o sono chegasse para tranqüilizar. Tudo é muito vago, imagem turva perdendo-se no labirinto da memória. São fatos para mim sem nenhuma relevância. Papel mofado. Amigo falso. Trapos revoluteando até sumirem. Ilusão nefasta. Covardia. Minha avó comprava “o forte apache”; cavalos, índios, cowboys, carruagens, e areia do agreste nordestino ajudava a compor o cenário ideal para lutas, conquistas, derrotas e tudo o mais que a maravilhosa insanidade da infância pôde proporcionar.
Hoje fujo de toda esta balbúrdia. Ás vezes um garrafa de vinho barato, discos na vitrola no último volume, revistas velhas de um tempo em que havia pentelhos nas modelos e algo terrivelmente gorduroso para acompanhar. É impossível engolir a hipocrisia. Sorrisos mostrando recentes visitas ao dentista. Orgulho em mostrar a roupa limpa mesmo sendo falsa. E o pior são os presentes; eletrodomésticos, colares, fôrmas de bolo, camisas regatas garimpadas nas mais obscuras das promoções, carteiras portas-cédula, mas o pior mesmo são as bijouterias dadas com tanto fervor e carinho que parecem mesmo serem verdadeiras jóias, a lista dos horrores é de uma imensidão que encontraria o caminho do cemitério e não chegaria ao fim.
26 de dezembro de 2005, um dia após toda a bazófia, daqui uns dias e mais um ciclo recomeça. Já não agüento mais a profusão de propagandas, roupas brancas, garrafas de champanhe barato, sorrisos esmaltados. Minha avó enfeita com tiras brancas e amarelas o retrato de minha bisavó, como se estivesse conversando com ela carinhosamente. Estranha ternura. Sensação de profundo fracasso. O tempo rápido de demais. O músculo que comanda as correntezas estrebucha anunciando o provável fim. A criança desliga–se do mundo alienada em um novo brinquedo que aprisiona pedaços do real. A carruagem repleta de ilusões já sumiu no horizonte. Mais um dia. Menos vida. Cinco dias para uma efusão de promessas: “Juro que não como mais gordura.” “ Beberei socialmente e nada mais.” “Quebro meu cartão de crédito.” “ Dessa vez paro de fumar.” Enfim balelas e nada mais.
3 décadas e seis meses. Quente como um forno a província rasteja. A decoração de fim de ano é uma das coisas mais deprimentes que acontecem por aqui. Pobre em detalhes. Até parece reaproveitamento da decoração do ano passado. 30 anos e aqui estou enterrado num buraco no fim do mundo. A árvore de natal de 83 metros pisca radiante para as janelas dos arranha-céus. Famílias paupérrimas acampam debaixo de uma ponte que dá acesso ao um bairro de classe-média da cidade. As lojas vociferam tonitroantes refrões hipnóticos. Enorme cansaço. Fodam-se todos e feliz ano-novo!

2 comentários:

J.H. disse...

PQP!

Vc esqueceu de dizer jingle bells...rs

Cara...Gostei pra caralho.

Já dizia Oscar Wilde:Se o mundo é um palco,o elenco é um horror.

E que horror.Dez vezes horror no natal e no ano.

v disse...

Por que o feio sempre me soa mais lírico que o bonito?
Acho que é minha essência Augusto dos Anjos.

Muito bom.
Tive a impressão que cada parágrafo era um novo texto.