segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Domingo, 17 de dezembro de 2006

Vejo... sussurro no vazio da noite... espreito o perigo... trago nas mãos sangue, não sei de onde, não sei de quem, não sei como... o ritmo aumenta... sem inspiração insisto... arrependimento... tenho que solucionar de vez este calvário que a minha vida se tornou... sem vontade, sem opinião, mera peça de um jogo, nunca decido, nunca sou ouvido... onde é o meu lugar nesta porcaria de mundo? Onde procurar o caminho certo? Obedeço ou não essas vozes lindas em minha cabeça? Até quando vagar tal qual um zumbi?... meus bolsos vazios imploram por uma arma... débil mental... minha avó diz “ Vou embora com 2006 ”, eu escuto e ignoro... aqui o legado é pura merda... pássaro pousa no fio, estrebucha e cai morto... agora queria todas as lembranças da minha vida, todas sem exceção... sol se pondo e eu sei que você está aí em qualquer lugar perdida no espaço fantasmagórico da inteligência... sem regras... sonhos perdidos... leve meus segredos pra longe daqui pois já não os tenho... o tempo massacra... nem o sei o dia de ter tido um momento de tranquilidade... nem a mesa de bar alivia-me mais... cansei dos discos.. música invadindo tudo... lágrima represada... coceira... olhar ensadecido... preciso de pílulas... aqui no sofá enojo-me deste ócio, desta atmosfera de consumo insuportável, a maldição da propriedade piorando minha condição... os nervos do braço avisam com dores finas e formigamentos que algo não vai bem... o dia passa rápido... as pessoas vagam sorridentes na fantasia mínima do fim de semana... a criança chora... esqueço coisas... canso de pedir e não ser atendido... sinto o fio da lâmina na ponta do dedo... motor ronca... guardanapo... gato esmagado no asfalto... saudade... a porta abre e sou intimidado a sair de onde estou... não entendo as pessoas... silêncio... coço a cabeça... e lá vou mais uma vez pelo pântano... coço a virilha... perdendo a forma... palavra esvaindo-se... faça isso, faça aquilo... limpe, sorria e limpe de novo... crise... este sou eu falando comigo mesmo numa maré de erros e tem cuspe no meu espelho, nojo... boneca desmembrada dentro do guarda roupa... vergonha... todos os dias são alfinetadas... desespero... a matraca repete incansavelmente a ladainha de todos os dias... luta... domesticidade castrante... frustração ergonômica... desvio os olhos da desgraça... ali na janela algo interessante... sou puxado de volta pra minha ruína... o mundo me espera... não consigo me mover... atire logo bem no meio da testa, elimine de vez, acabe com esta agonia insuportável de estar e não ser, de ser e não sentir, de ter e não servir pra nada... sou um homem de poucos atributos... grito na noite fria que se inicia... o gatilho falha, despenco em meu leito num sono profundo isento de sonhos a espera de um dia que eu não desejo ver... agora é o momento final, agora onde tudo é expiado, justamente agora me calo e deixo o silêncio responder por mim...

Um comentário:

Relatividade Restrita disse...

Algo de Fernando Pessoa...Sempre ele.Universal.Algo de poema em linha reta.A desilusão da vida.E ainda assim vejo uma esperança enfurnada.Algo escondido.Talvez seja a esperança da palavra tornar-se a dor que é dentro do ser.

Também estou e não sou,também sou e não sinto,tenho e não serve pra nada.