quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Sou filho do movimento para o movimento que gera movimentos mil

Quando paro num movimento só
que gera um movimento só de movimentos unos.
Sinto a morosidade da morte doméstica se aproximando.

Todas as caldeiras esmorecem as chamas da criação.
A rede balança silenciosa.
A espera do nada.

15/08/20186

segunda-feira, 20 de novembro de 2017


        
         03-05-2011

         Lendas do concreto somem na fuligem. O etéreo, vaga de arroto a peido à fedentina de sovaco sujo a hálito cariado. No sonho agarrava sem jeito pequenos peixes e os depositava de volta no aquário que transborda sem parar. Cada dia mais só. Outrora se masturbava no quintal ouvindo os murmúrios dos vizinhos; tv, ruídos de cama, gatos em combate, uma vaca solitária num quintal minúsculo, pombos que nunca dormem, essa torrente amalgamando-se aos espasmos do ventre e ao tremer das pernas. O solo fértil recebendo milhões de vidas natimortas. Agora lhe resta o silêncio da madrugada quando acorda de pesadelos terríveis e não há outro modo de alcançar o sono a não ser a prece a Onan. Despertar dia-a-dia torna-se um martírio encarar a batalha da caixa metálica transportadora. Sem vitória. Todos iguais. Agora um medo crescente. Como se o próximo passo fosse um presságio mortífero. No solavanco acorda e contempla a menina de olheiras e glúteos perfeitos. Difícil não contemplar a saúde que emana das formas juvenis que  antagonizam com a rotina noturna denunciada em sua cavidade orbital. Surge desconhecida some lembrada; no átomo que é a província talvez ela desapareça. E com bafo de pura mortandade expele conselho aos ouvidos de uma quase-morta. Antagônica. Apostasia. Pesada e inefável a carga da vida trespassa a carcaça relutante. Agulhas passeiam no peito raquítico. Populações espalham-se pelos recônditos do corpo. Ninfas saltitam ao redor do lago artificial. Da caverna suspensa o corpo lateja em voluptuosa contemplação. Das profundezas de estantes repletas ouve um parceiro humilhando o outro. A máquina move-se obediente. O corpo contradiz e persiste. A tarde chega.

sábado, 21 de outubro de 2017

12 – março – 2010

Diante da tela ele descansa. Diante da página ele viaja, transpõe os próprios limites. A água do chuveiro desce suave, de olhos fechados deixa-se ao devaneio líquido. A sujeira descendo. Sente ele em si indo pro esgoto, tala qual intimidade quente e avassaladora. Sem transeuntes, sem vozes, nada de cotidiano, apenas ele e os canos sujos, indo misturando-se com todo o resto até ser uma massa difusa sem distinção, quem sabe morte, quem sabe nada. Deita-se pesado. Uma pedra, um bloco, um peso no peito, o ar cada vez mais rarefeito, espera o sono, chega a passos lentos, telhados dissolvendo-se, escuridão que abunda e abraça tudo. A palavra soa, ninguém entende, música inebriante que surge do nada. A poça de lama no quintal exala um odor nauseabundo. Acocara-se perante a poça, o que vê é terrível; porque até pro belo é terrível contemplar-se, no caso dele é diferente sem ser, pois sabe muito bem que a feiura é o que lhe veste. Marasmo total. Joelhos doem. Levanta-se com dificuldade. Zonzo. Caminha de volta ao casebre como se fosse um passeio final ao cadafalso. E dentro da enorme caixa de aço que desliza pelas ruas, a pele, o corpo roça, choca-se e sente vindo das bocas, das axilas, dos cabelos, das genitálias, miríades, galáxias, nuances, rastros que deleitam, dão nojo, as papilas reagem, uma batalha estar e permanecer em pé. E quando desce não sabe pra onde vai. Ruas desertas. Praças sujas. Janelas vazias. Estranha sensação de ser o único que realmente está vivo. O que fazer numa rua de portas fechadas? Tentar ouvir? Tentar sentir o que há lá dentro? Encosta o ouvido na parede mas não consegue captar nada. A copa das árvores da praça emitem um som, quase uma canção. Senta-se no meio-fio, cospe no asfalto quente. Engole seco. Lê e então entende. Escuta o agouro. Limpa o suor da testa. Anda. Continua.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Todo ato benigno
Germina merda
Floresce dor
Estoura as têmporas

Carícia dissimula
Em falsidade exclusivista
Corpo dói
Nojo nasce com força temporã

Bruma nuvens chuva
Ânsia profunda húmus ser húmus
Alma em colapso
Mente em desvario

Tudo mas tudo mesmo
Fora de controle
Dentro de uma loucura
Dentro de insuportável dor

Toda tentativa é falha
O prazer algo inalcançável
Como tudo o mais
Como sempre foi e será

2001






Antigas interrogações se repetem
Como num mantra repetitivo...
Agora agarro a palavra do jeito que dá
Pois a ideia tornou-se escorregadia, fugaz

Não me iludo com, faces risonhas
Lembro-me de máscaras irônicas;
No fardo que é minha senda...
Torno-me frio, distante e indiferente

O pesadelo, o fel de antigos fantasmas, dor...
Uma mão poderosa afunda meu peito
Quase afogado, morto, sei lá, acordo
Coração tonitruante, mudo, amedrontado

Todavia  sei que sou minha ruína
E uma imagem se repete cada dia mais próxima
Lâmina conclusiva, serpente letal, cova escura
Nada fui, nada sou, nada serei...

17/09/1999







Mergulho deslumbrado em farpas,
Úlcera lenta e destrutiva que avança incansável.

A realidade não passa de um placebo.
Tétrico ruminar de horas.
Lembranças sujas pelo desgosto.
Um copo atrás do outro
O líquido provendo um desembestar quase Rompe-se o lacre.
O descontrole se faz presente
As cicatrizes nos meus braços pinicam lembranças,
Trazem sensações na carne quase morta.

Quando abro a página é um impulso libertador.
Mas não passa de um momento
Reles partícula efêmera eclodindo câncer.

Não há satisfação.
Entre uma noite mal dormida e outra
Me resta prosseguir...


24-09-2008
Destino
Ao longe apenas fuligem
E de lembranças vou morrendo
O verbo mais forte que nunca
A nuvem cinza resolve desaparecer
O mofo evapora
Inúmeras razões para a vida
Inúmeros sonhos para esquecer no canto escuro da memória.

O amor é uma ruína desesperada em que me apego
Lembro do rosto da criança branca satisfeita com sua guloseima preferida.
Anzóis em minha face
Meus pulmões não aguentam mais a fumaça sagrada
Leve brisa movimenta grãos de areia na sala
Meus músculos atrofiados não aguentam mais o peso da vida
O sol avança

Minha história é uma veleidade vazia tal qual propaganda barata
Meu coração não suporta mais o pó
Todos os dias adormeço diante da fornicadora de ilusões
A cada grilhão quebrado surgem novos limites
No meu leito um felino bicolor noir dorme, dorme e vive
Uma fêmea passeia pela casa com o útero repleto de vida
Meu fígado já desistiu há tempos

Resta-me a realidade insalubre
Vejo a cicatriz em meu ventre
Tento fugir
Não há escapatória daqui
Beijo com fulgor a vulva peluda da negra
Tento acordar
Minhas vísceras na parede denunciam-me,
Riem estridentemente dentro de minha cabeça

Visto a roupa
Sinto-me preparado pra nada
O meio-dia está por um fio
Lambo meu suor
Solidão
Todos estão eternamente solitários em sua senda
Engulo espinhos
Ofegante tento enunciar minha chegada
Mas é mesmo que nada
O que emito apenas eu ouço

Tudo difícil
Nada mais...

03-08-2004


Acerco-me de tudo
Por que existo
Por que vivo
Mas
Não importa a verdade
Não importa o falso que há
Embora
O que se entende por ser
Seja seguir as regras
E dentro das delimitações destacar-se
Pois é disto que não preciso
Super-ânsia: não!
Super-verbo: não!
Super-teoria: não!
Não basta
Não resolve;
A práxis verdadeira uma quimera utópica...
O ínfimo ainda é e será particular ao “homem”
Neste torvelinho de merda que é a vida
Divirto-me com a fome
Abraço a jornada brutal como musa
Aqueço-me nas gotas que caem
Tento, por fim, viver numa câmara escura
Sem sonho
Sem idílio
Sem prazer
Sem nada...

19-07-2001




domingo, 27 de agosto de 2017

Livre da máquina? Livre de ser máquina?  Minha sombra gargalha, a crisálida é rompida. Frases repetidas. Escuto mas não assimilo. Lento, deslizo na manhã, ainda sono, ainda quase pesadelo. Irreal. Confuso. Xícara vazia. Fones desligados. Ele esperava mas foi esmagado pelo tempo. Todo dia é uma nova ruptura. Em transe desconheço o mundo, regurgito pessoas. Saudade da entorpecedora alegria de atirar para o alto em manhãs ensolaradas. Agora um cochilo resolveria muita coisa; uma breve estadia no vazio do descanso. O mesmo trajeto, signos que se repetem, velocidade lenta, o óbvio gruda na pele. Escarificação. Não tenho força pra expressar as imagens em minha cabeça. Poeira. Claridade excessiva.
Outro dia. Oito horas da manhã de um sábado ensolarado e tórrido. Resquícios de sonhos levitam intocáveis. Desespero suave, daqueles que lhe levam ao limite de maneira simples e calma. Superficial. Minha palavra é uma fuga, a maior das fugas, um esquecimento, um dormir ao relento, seguri o fluxo sem ruminar, uma profundidade estéril, finjo acreditar nas bobagens que ouço, minto quando digo que vejo se nem sei realmente o que vem a ser o ato de ver. Quero o vômito azedo por cima do peito escorrendo até a virilha, quero o lombo sangrando até as nádegas, quero cuspidas na cara, quero que a vulva banhe-me com jato mais forte de uma urina quente e magnanimamente dourada, quero a baba depois de estocar no fundo da garganta, também quero a lágrima, quero gotas de suor do ânus, quero a sola dos pés sujos em minha face, quero o suor da vulva depois de um dia estafante de trabalho, quero peidos, quero o peso do corpo nu sufocando minha face; o buraco da vida, o buraco da merda, quero o há lito acre doce das primeiras horas da manhã, quero a língua sibilante em minha glande ainda suja depois de uma longa noite solitária de masturbação esquizofrenética, quero a mão inteira abraçada pela vulva, e quero as variantes mais nauseabundas que possam surgir. Terrível ir de um lado para o outro, não poder satisfazer, como se os grilhões invisíveis, estivessem atados aos meus calcanhares, pior mesmo é o silêncio dentro da cabeça e aos poucos cochichos tomam forma de uma confusão oral, de uma balbúrdia sonora, uma confusão de uma única voz, variação bizarra de uma única expressão, cada voz é uma parturiente surreal, cada voz uma enxurrada de imagens, questionamentos, ordens, desejos e muita mas muita frustração. E tudo isso zanzando em ruas desertas de um bairro fudido. Ó doce incompetência de estar vivo. Movo a poeira dos livros, levita e cai mais embaixo, tudo não passa de uma sucessão de desencontros, descendo a ladeira, ralando os joelhos, tentando a todo custo parar a queda, mas, nunca para, nunca o conforto se estabelece. Amargo na boca, articulações travadas, cansaço extremo. Tenho uma dádiva nas mãos, pressinto que posso estragar tudo, flashes insanos, passeiam em minha cabeça. Dor de cabeça fina bem atrás do olho direito. Sinto falta de café. Ser inútil, viver inútil, acordar inútil. O erro prevalece, a virtude tomba, a moral não passa de um leproso pedindo esmola na porta de uma igreja, o escrúpulo é enterrado, a boa vontade é uma puta raquítica de 13 anos vendendo sua genitália podre e suja por dez reais. No silêncio da manhã ensolarada refugio-me em meio às estantes, penso que o passado possa me anestesiar, sugar-me desta sinfonia dodecafônica de carros que passam incessantemente. Leve desordem prefigura caos incontrolável. Passei três dias deitado no azulejo branco e frio. Encurralado. Qualquer opção vai dar em merda. Tento mas não consigo, todo mergulho interior revela-se uma frustração sem tamanho, superfície lisa e estéril e impenetrável. Um final de semana sem uma gota de álcool, uma terça-feira iluminada e sem ressaca. Triste muito triste. Buzinas nervosas anunciam o dia. A senhora de cabelos curtos vê o livro antigo e lembra com regozijo e vejo na minha mente obnubilada pelo sono imagens de sua vivência de outrora. Atrasado, hostil, ignorado. Apenas o silêncio, apenas ouvir os barulhos exteriores. Como entender a polifonia estapafúrdia da vida? 
Manhã de luz antiga
Língua cinza e suave
Um corpo que despenca do 12º andar
Corpo que voa em silêncio rumo ao silêncio
Chinelos vazios no chão de madeira
Um casal de felinos siameses me contempla;
A gata lambe as pontas dos meus dedos; pureza
O gato anda sobre o meu peito; partilha
Manhã de ébria saudade...
E deslizo por entre as melodias
Já não estou mais no labirinto
Agora sou o próprio
Não tenho mais lábios sobre os meus olhos
Não tenho mais versos sobre minha alma
Apenas tenho pra cada átomo do meu corpo um imenso limbo;
Uma tempestade de limbos
E resguardo-me  da dor como quem degusta morangos
Sim...
São várias manhãs em que me liquidifico num suco hormonal e salgado...
Manhã de paredes cor de pérola
Voar é deitar-se e não sentir
Porque sentir é estar de pé
Voar é ficar surdo...
Manhã eterna manhã
Até a tarde tornou-se manhã
Como se fosse o mais belo retalho
De um perfeito colchão de retalhos que seca eternamente ao sol
Sem perder a umidade...

25-11-1996