quarta-feira, 25 de março de 2009

expressão que trava
língua que perfura
cada recôndito
cada centímetro

outrora intocáveis
agora receptivos
conforto umbilical
lúbrica ascensão

de dentro pra fora
externo visceral
gotas de suor
amálgama incandescente

23-03-09 &
eis que o rio seca
palavra jaz calada
confinada num baú de vísceras
velhos gestos retornam

uma última onda
de pulsante energia
labaredas vermelhas
línguas escarlates

deito no abismo
nada enxergo
estranha solitude
canção triste que se vai

é como se acordasse
de um longo pesadelo
grilhões derretem
escalo o buraco com avidez

não importa
seja luz
seja sombra
verdadeiramente não interessa

cada passo
uma certeza dum novo que dilacera
cada olhar
um vislumbre daquilo que é imutável...

18-03-09 &

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

nunca sinto realmente o que penso sentir mesmo quando há beleza em demasiado nem quando a dor extrapola todos os nervos...ainda asco...a partir de hoje e sabendo que isso não é uma promessa vou controlar o animal que há em mim...que venha toda idiossincrasia e a dormência do gestual civilizado e a hipocrisia fantástica que alimenta os sorrisos amarelos de nosso tétrico passar de dias...será que há uma segunda chance? o corpo despenca em frenesi...tudo demora tanto ao ponto de não parecer demora tal qual um sonho que nunca acaba ramificando-se numa profusão virulenta...olhar o vazio, esquecer o vazio, esquecer o que não cessa de martelar, quem sabe doença e então acordarei e tomarei coragem de dar o grande passo...prefiro embotar todos os sentimentos...foda-se o futuro...que vá a merda o presente...que o passado suma...nem lembrança, nada!
penumbra vermelha que banha o corpo, talvez lascívia quem sabe um descontrole...uma semana inteira de ressacas memoráveis...o falso aponta na esquina...pedras e pedras derretem rumo ao miolo...sigo no tédio, na lentidão mísera, puro resquício, intenção tardia...carros atropelam minha sanidade...de hoje em diante é ir sem olhar para trás, sem esquivar-se dos fatos apenas para sucumbir depois com o peso metafórico da significação...nado no lixo...cuspo pra cima e recebo de volta...é o mofo das estantes, é a insegurança da noite, pesadelos de barriga cheia...
janeiro - 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A alegria repousa escondida, líquida, fumaça sinuosa, pancadas vindos de qualquer lugar, alegria e saudade, o sorriso brinca de entristecer mas ainda a alegria insiste, seja em cortar a unha do pé, quem sabe um dia insalubre numa ressaca transcendental...
gritos repletos de euforia...a alegria de lembrar dos mortos...a epifania da voz rouca...sonhos, sonhos, sonhos...mesmo quando o copo vira e sei que danifica a singeleza do corpo, a palavra efusiva do amigo, a forma esquálida observando silenciosamente, a palavra fluindo, o líquido desce, esquece-se da fome...
e onde repousa as razões das coisas? quem dera um vislumbre, o famoso "insigth" para quebrar o desenrolar contínuo de uma monotonia que não cessa...
um rosto na multidão, uma face distorcida na janela do ônibus, um fantasma vivo que canta solitário, ruínas de uma imaginação falida...
daqui a pouco o último gole, caminhar a esmo, encapsular-se nos bólidos de aço e quem sabe ir pra casa ou qualquer outro lugar...
janeiro 2009

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sempre recorrente
abrindo portas
sucumbindo através
de janelas

a infância pulsa
maturidade sofre
a maravilha de ser irresponsável
reduzida a mera lembrança

minha vida pesa
um peso sem medida
e não vale nada
nem moeda, nem ilusão

estraçalha, reluta
destrói, castiga
escorre do nariz
desliza da boca

meu verbo
túmulo eficaz
meu corpo
paraíso de vermes

04-12-08

sábado, 6 de dezembro de 2008

Onde repousar a sola dos pés?
onde resguardar a última centelha
de um escrúpulo já falido?

o pior se anuncia
mergulhos cada vez mais profundos
silêncio longo
a cada vez penso vislumbrar
o fundo do poço.

fracasso fracasso fracasso
minha fome entorpece

dou um passo decisivo
cravo em meu peito
o punhal da covardia
repleto de fel

tenho um minúsculo rato morto em minhas mãos
sem podridão
vencido pela vida
ou ceifado pela morte?

imagens e siginificados misturam-se
sou sugado por minha imprudrência
arrepios de um futuro surto
pinicam a pele seca.

1-12-08
Transido
inspiro
dói o peito
fenda expandida

a face
nega o riso
o corpo
engole lixo

ouço
a melodia sinistra
decrépitos
louvando a ruína

espero
o fim da ressaca
lambendo o mofo
aceito o final

1-12-08
Rasgo o passado
outro emerge
pássaro lento, faminto
contempla a carniça

o pranto escorre
dos olhos, da boca
navalha fria
rasgando mais uma vez

contemplo os restos
pedaços meus
lembrança sem sentido
para o abismo, vazio sem fim

culmino solidão
destino irreparável
sempre um peso
difícil, péssimo de aguentar!

18-11-08
Sim, vontade de continuar
todas as imagens
tais quais eternas repetições
cópias mofadas de sim mesmas

sem vontade de ser
ânsia de nunca mais ouvir
desejo de resto de mundo
resquício de sexo podre e álcool

pior é prosseguir
rente à lâmina
sinto o cheiro do meu sangue
já coagulado pelo tempo

rastejar sempre na mesma direeção
não prestar atenção em nada.
é o mundo uma mancha rápida
ou sou um traço inútil?

pior forma de morrer
é estar terrivelmente vivo
não ter coragem para opções sérias
e padecer em meio ao ócio, à miséria.

15-11-08