sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Muito difícil lembrar todos os sonhos.
Igualmente difícil lembrar de poemas rasgados.

Você num mastro muito alto, coberta por um manto branco
Eu um pouco acima de Você flutuava de braços abertos
Depois estamos num meio de um tiroteio
alguns homens tiram Você de meus braços, Eu grito que te amo
Você tenta gritar mas um homem branco de arma em punho
Encaixa o cano da arma em tua boca e detona
Mesmo assim em meio ao sangue e os dentes quebrados
Você regurgita o sangue com a frase “eu te amo”.

Difícil mesmo é não sonhar...beijos aqui, vaginas ali...
Queda que aos poucos tornam-se vôos...
Palavras que não entendo porém as sinto...

Negra lânguida, ofídica que abre as pernas,
No meio das pernas algo maravilhoso, suculento;
Ela se masturba, arqueja, arfa insatisfeita, sedenta.
Então chega um rapaz magro, cabelos curtos e a penetra.
A língua da negra baila no ar à procura da outra língua
As estocadas são fortes no corpo magro da serpente de ébano
Ele branco
Ela negra
Um só nó
Um corpo tântrico
Apenas um feixe de energia...

Eu dizia vamos atravessar o Nordeste a pé...
Caminhávamos sob o sol escaldante. Chegando numa casa mandam-me entrar.
Conduzem-me ao um quarto. Lá, pasmo ao encontrar meu Avô octogenário
Cheirando cocaína na unha do polegar direito...

Às vezes não queria sonhar.
Não queria pra esquecer a névoa, a bruma mágica do sonho.
Há uma coisa que me irrita nos sonhos.
Não há música.
Apenas uma nostalgia que envolve tudo.

17 abril 96
A sala jaz em silêncio...migalhas pelo chão...
A televisão é um deus morto e manipulador...
A velhice é cheiro acre doce de meus avós... a morte ronda meu corpo
A dor é um carro preto e branco pela madrugada...
Não há mais silêncio, existem moscas copulando no chão sujo...
Na noite de ontem retornei pra casa por outro caminho
Não quis mais o mesmo labirinto, resolvi criar novas fugas, novos rumos...
A dor quer algemar a todos...as motos-serra zumbem pela manhã
Aqui não há mais energia...
As paredes, os livros, os retratos, as colagens
Dizem em uníssono que não nasci para possuir, apenas para contemplar...
Ontem em louvor ao invisível, copos repletos de cerveja voaram
Banhando a todos, e depois espatifaram-se contra o solo de mármore...
Não quero escutar o burburinho...
Não quero ver as feridas ambulantes que são as pessoas...
Aos poucos sou invadido pela luz, pela felicidade;
Belos sorrisos numa tarde de sábado...
Queria não mais sentir a felicidade porquê ela é muito rápida...
Bolhas de sabão na noite...pia entupida de v^mito amarelo
Sem perceber saio de casa...não mereço o que tenho...
Pressa e inconstância são os elementos que moram em meu coração...
Meus olhos recusam-se em contemplar a claridade
Minhas mãos não desejam tocar em pele alguma
E no meu peito arde um redemoinho de dor, desejo e expectativa
Não sei que estradas me esperam mas sei para onde vou...
A cada biscoito mastigado o tédio lapida-se...a sala já não é silêncio...
E você parece um partícula de filme noir...
Divago, cochilo por alguns segundo...
Minha Bisavó repousa alegre aos 87 anos no antigo retrato...
O langor nas tardes de verão me abraça...
Nos outros lares os deuses estão ligados...
Aqui é como se a escuridão engolisse o dia dentro do próprio dia...
Meu corpo é uma lesma letárgica...teu sorriso algo lisérgico
Sinto-me mera mancha em teu corpo
Sou sono, sonho e quase vida...

Março 96
É bom estar com fome em antros que não são meus
Sentir o âmago da necessidade transmuta-se em delírio
Deixar que as canções atrapalhem a máquina-inspiração
É bom sentir o chão tornar-se líquido, bruxuleante
E cair numa falsa queda, num falso abismo
Sentir todas as vísceras, ouvir o murmúrio das vísceras
Pequenos pés que caminham nos diminutos córregos de sangue...
As palavras são lentas, os gestos são rabiscos numa tela azul
O olhar é pára-brisa embaçado
Tudo ao redor é lama, enrugado como os lábios de minha Avó
E é fogo...e é frio...assim vais nascendo, subindo, queimando, cortando
E é dor...e é pavor...então o sono chega...
Como numa cama fria e silenciosa me agasalho, me agacho
Sinto uma angústia que não é minha
Tentáculos púrpuros envolvem minhas mãos
Casca de ovo flutuando perante os olhos, sinto comichar o peito;
Náusea, cãibra...o silêncio quer calar, engolir tudo
Hoje não há luz, hoje a língua repousa
Amanhã é amanhã e não importa o que haja
Queimo-me, perco-me em coivaras, perco-me em mares alcoólicos
Respiro profunda e pausadamente
Agora queria ver teus olhos, beber teu sumo mas não queria beija-la
Na tarde de Maio as canções são bucólicas
Os objetos parecem concentrados com algo profundamente intrínseco
A brisa é artificial e tem hélices cinza
Não há mais fome, só há imobilidade e sonolência
E o leito que me deito não é meu, até os sonhos não parecem serem meus
Tudo que há em mim é dos outros
Não sei o que é ser dono de mim, nunca aprendi a ter
E quero gritar como se fosse o último grito
Quero gritar diante o espelho banhado em sangue
Quero como se o flagelo fosse a grande ascensão

1996
A cada pedaço de carne regurgitado surge uma nova canção
Imensas chamas
Seres trôpegos numa redoma de nojo
A canção popular se prolonga por todo o ser...espasmos...olhares espios
Perco as pernas, perco os braços
Ganho tentáculos, ganho asas
Tudo é tremor
Replay feroz e sangrento
Suportarei, suportarei todos os ácidos
Todas as salas cáusticas da monotonia
Suportarei, apenas peço que tenham melodias...
As unhas sujas repousam sob(re) a página em branco...
A angústia é um óculos quebrado sobre uma mesa de toalha verde...
O corpo arde, arde e voa rumo à escuridão e depois expele luz,
Navalhas fulgurantes de luz...
Uma menina a hélice de um liquidificador
Pra beijar-me também, sim, ela juntou seus lábios-farrapo
Aos meus perfeitos lábios, sue sangue em minha saliva,
E sorri, sorri de tanta dor...
Bonecos de pelúcia repousam sob a luz fluorescente
A mudez das vitrine abraça o meu ventre e explode em meu peito
E sou resto de vida, sou pulso que sangra perante o espelho
Sou corpo que agoniza envenenado no tapete da sala vazia
E também já sou a própria sala pois o meu sangue escorre em suas paredes,
Em minha paredes...
Não ter fim
É isso tudo que pedem
Não ter redomas
Tudo que vejo são redomas; são parapeitos
Imensos abismos
Janelas cinza
Fumaças-serpente num bar em penumbra
Mas ter fim é não ter fim
Não ter fim é parto interminável...

16 de março - 96
Recriar. Recusar é ressuscitar...o que vejo já não importa...
Escada rolante e vazia, solitária no seu sereno subir...
As pessoas são formas embaçadas do outro lado da vitrine
Os sonhos retornam mais longínquos, etéreos tal qual armadilhas
Pequena casa de paredes molhadas em manhãs cinza do mês de julho...
Voz doce e saltitante da pequena Tainá...
Todos os dias são aves que despencam do céu e espatifam-se
Na planície negra do asfalto, sim, os dias são isto...
E quero partir-me ao meio e depois em milhões de pedaços
Até transmutar-se em vácuo incorrigível;
Não quero ver meu rosto nos pára-brisa
Não quero o meu corpo diante da luz
Não quero minhas digitais em face alguma ou nenhuma superfície...
Qualquer lençol, não importa que seja tênue ou áspero
Apenas que envolva, que reconforte...
Antes voara, agora sou subterrâneo e o máximo de ascensão que suporto
É o mero claudicante rastejar na superfície...
Abster-se de mim, do meu suor, da minha ociosa paz, de minha voz grave
Rápida e embaralhada, do meu olhar distante,
De minhas mãos trêmulas e nervosas...
Torvelinho sonoro que pouco a pouco vai emergindo
Abraçando todos os poros, entorpecendo, entorpecendo
Cada palavra tal qual eco num corredor escuro
Vedado onde o som morre ali mesmo abafado
Como um feto enforcado no útero da mãe-dor...
Contemplar e cair e debruçar-me sobre minha sombra
Superar e não abrir os olhos...
Deixo-me mas mesmo assim as partículas voltam a unirem-se
Cada retorno é um novo parto, um espécie de regeneração da degradação
Gradual, lenta e corrosiva daquilo que chama vida...
As páginas estão gritando para que Eu as queime.
Pois o pó e as traças virão para destruir tudo como se fosse donos, fossem reis
Agora só há antigas canções nas escadas vazias, não há sombras
Não há luzes, não há vida ou falsa vida...
Filhote de pardal recém-nascido morto no canto da porta do banheiro
Velhos colares cobertos de pó pendurados na parede branca...
Vertigem...ânsia...calo-me e caio mais uma vez
Quase tudo parece plástico e carne reciclada...
Fecho os olhos
Adormeço.

24-7-96 Difratelli Bar
Fadiga...os minutos correm como minúsculos dardos venenosos,
As horas passeiam lentamente como foices sem gume na vegetação...
Fome...a mente grita, o corpo reluta pedindo ocaso, eterna indecisão...
Os outdoors dizem: colecione, empilhe, forneça, seja o mundo, ressuscite,
Construa estátuas, eternize-se...
As músicas na manhã de sexta-feira são lentas, densas...
Não sei porque há tanta vida nessa carcaça...
Os flancos explodem de dor...
Cada palavra é um eterno retorno....
Cada “noite perdida” é um encontro com o que resta da essência-vida
Que em mim reside...
Não há desespero,
Apenas fleuma intransponível que agride e quebra todos espelhos.
Quando começo o vômito, não quero mais parar
Enquanto houver vazio branco frente aos meus olhos...
E num murmúrio as palavras da grande amiga-irmã tornaram-se banais
Como se fossem anúncios de televisão; os gestos não foram suaves
Não havia mais a fada que conheci. Tenho medo que seja a última vez que a vejo...revista velha, mofada no meio da sala limpa...
Na madrugada de hoje não sonhei; o sono foi um manto negro e inerte...
As foices brandiam ferozes no ar mas nada eram contra o poder das rajadas...
Mais uma vez o sangue banha a terra...ontem tudo foi frustração...
Não há sombras, tudo é horrível luz varando as pupilas...
Não permito o silêncio em nenhum dos vãos da alcova...não aceito o vazio,
Tem que haver alguma coisa, algum resquício; sempre patchwork incontrolável
Nunca página em branco...
As antigas canções arrepiam todo o corpo suado, trazem lágrimas aos olhos
Me fazem descontrolado na manhã nublada de abril...
O perdão é um tanque passeando nas ruas de Sarajevo...
Vagaroso, tortuoso, escorregadio, eis o mundo como o fizeram...
Até que ponto vale viver?
Sou mais um corpo suado sob o sol Nordeste...cacto ressecado...
Etíope espécime entre as paredes repletas de néon da cidade...desespero...
Fácil é lutar e não ser feliz...
Quase tudo em minha casa é distante, estranho, infeliz...
Não sei onde por as mãos e as palavras...
O paladar tornou-se obsoleto
Pois as coisas que me rodeiam não possuem mais sabor algum...
Lampejos...vozes...cacos
O querer já não é desejo mas mero ato enfadonho; louvor à ruína.

19 abril 96
Ontem Eu disse que não queria escutar as canções tristes da vida...
Lindo umbigo tatuado...e tuas lágrimas rolaram pela face branca...
Ontem o mundo inteiro era uma canção nostálgica e triste...
Na sexta-feira o mundo era calmo...
No sábado as ruas eram serpentes negras anestesiadas...
Antonin Artaud delirando na tarde de domingo...
E na noite de domingo chorei vendo um filme preto-e-branco...
É deliciosa a sensação de que o cérebro é um misto de uma tela branca virginal
E pura com inúmeros recortes ao redor pairando eternamente...
E já o terceiro inverno que passo entre tuas pernas
Hoje a mão trêmula apalpa as cicatrizes feitas por tuas unhas
Agora manhã de brisa suave e parca luz...
As vísceras se movimentam na manhã de terça-feira ruminando ebriedade...
Amargo...vassouras azuis de cerdas fosforescentes...pássaro engaiolado...
Quem é o meu sofrimento? Quem é o meu olhar? Quem é o meu beijo?
Quem é o meu abraço?
A saudade é um antigo desenho animado em pleno meio-dia...
A perspectiva é um relógio quebrado...
O prazer é uma pirâmide negra de cabeça para baixo...
Ontem-nada, ontem-álcool, ontem-vácuo...
E como se fosse erro vou parar em outros lugares...
Já não posso andar pois grilhões de carne pesam em meus calcanhares,
Estragam a garganta...
Sou invadido por sonhos, pequenos filmes de cores berrantes, surreais
Ontem-penunbra...saudade das pequeninas mãos de Renata...
E sei que sou mero esboço de uma grande obra,
Formidável sombra, opulenta raiz....
Há uma confusão, um redemoinho onde a ressurreição é uma nova morte...
Amanhece tudo cinza e alagado...o silêncio abraça tudo...
Onde estão vocês? Onde está você? O que querem vocês?
As paredes estão nuas, o leito desarrumado, as teias de aranhas perfeitas
Em sua geometria enfeitam o telhado...
Aos poucos a escuridão vai sendo expulsa pela violenta luz solar...
Não queria amar...queria esquecer...
E as músicas da manhã de quinta-feira são nostálgicas, tristes...
Pássaro exausto sobrevoando o oceano infinito...
O vinil gira...
Mas o mundo não se ajusta à minha melodia...

Ano 96
Vazio
Envolto em melodias
Mesmo assim
Frio

Aos poucos a noite torna-se horrível
Vaso despencando, despedaçando-se;
Cada caco uma estrela de desamparo e dor
Sorriso banguela da paraplégica que pede esmola
Mulheres grávidas dependuradas pelos pés

E não há futuro
Não há ruínas
Apenas tardes cáusticas e intermináveis

Minha boca tornou-se quebranto...
Minhas mãos tornaram-se tentáculos ressecados
Meus olhos tornaram-se janelas quebradas de casas desertas

Amargo e insalubre
Tudo transmutando-se em eterno passado
Cartas queimando ao som de Billie Holiday

27-11-96
Os meus olhos explodiram
Os teus olhos explodiram

Como papoulas ao meio-dia

Os meus lábios racharam
Os teus lábios sangraram

Como se o nosso destino
Fosse apenas sofrer

Por todos
Por tudo

E até por nós

segunda-feira, 7 de abril de 2008

às veze penso que me engano
e no antro doentio que cura
a surpresa se faz presente
digo com os meus botões que já não sei de nada

outras vezes fechos os olhos e sorrio...
tentando ser feliz?
fugindo do tartamudear do insosso real?
quem sabe, talvez, pois é?!!

numa brecha, a luz
num momento, a bruma indizível do destino
uma página que vira
olhos que se fecham