Às vezes feliz em minha solidão... abriram a porteira, os vermes voltam pra casa... o que salva é o sangue, mesmo podre... sempre interrogações sem respostas... enormes olhos castanhos debruçam sobre mim... às vezes nada... velhas canções de folclore devoram o resto de alegria, arremessando-me à uma dimensão de indelével tristeza... diante de um vazio inexorável sinto a ruína comichando... não sinto nada... dores no peito... minhas córneas já estão cansadas... hoje descobri uma imperfeição... a energia incontrolável dos filhotes ainda é o que resta de beleza... perco rumo, aliás, o rumo me perde, foge de mim... talvez esteja longe daqui quando menos esperarem... urina, fezes, vômito... não há mais paz, só vozes estridentes... aviltado diariamente... desolação... todos dão um passo... recuso-me ao real... exterco oferecido na tv... parece que a beleza esvaiu-se de tudo... será válida toda essa luta em prol da vida?... quando fecho os olhos, estradas, vales deslumbrantes, ravinas, montanhas, rios, banhos de chuva, sono ao relento, longe de tudo, perto de si... vença ou morra... quisera as dádivas de um momento tranqüilo... reina em mim um desânimo incrível... sinto a morte cada vez mais próxima... a felicidade é transmitida de maneira doce, suave e ilusória... agarro-me a fiapos... dou murro em ponta de faca... não sei o que fazer.
16-11-2004
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Arma-se o palco... latrinas ao vento...pernilongos fustigam... ela não acredita mais... quero uma dose de café... aqueles que acreditam nada fazem por mim... as faces assustadas das crianças da Chechênia desperta ódio... distraio-me... o tempo passa... percebo a derrota iminente...estranhamente sinto-me calmo... mudo canais... ouço a vida lá fora... estaca zero... tenho mais dez anos de vida e mais nada... o fútil na tela, o tolo na eterna espera, a bazófia na esquina, a angústia aqui pulsando no peito... o sono chega... num piscar de olhos chega o dia... frente-a-frente com a desgraça... engulo um pedaço de aço... músculos extenuados... a língua ribomba e não dá jeito em nada... a doença é o final para todos... dor, morte e vida se confundem nas primeiras horas do dia... o corpo tomado por leve apatia insiste em dormir... langor... pesadelos, rupturas, pavor, crise... o cavalo da minha desbraga sertão a fora sem brida, pura energia em meio ao nada... o novo sempre mais distante... são tantas imagens, uma torrente pulsante que me cega por completo... um livro, um passo, uma página, outro olho que se abre... a palavra transmuta quimeras, ilumina antros de profundas escuridão... todo o momento cada vez mais perto do fim... todo o dia um trampolim apontando para o vazio... o anzol volta vazio... fico quieto...
Antes de tudo tenho uma missão... destravo todos os mecanismos... insisto em sobreviver no tédio... amigos longe... daqui contemplo a montanha, impressiona a majestosidade... esqueço o quanto sou frágil... deixo muita coisa para trás... corro como um tresloucado, alguém me chama, quando me viro um tijolo com resto de reboco choca-se contra minha face, não sinto nada, apenas um clarão, e um pirralho de bermuda vermelha sorrindo da pancada... na manhã de segunda-feira levanto tomado por extrema fadiga, rego o pequeno idílio de plantas medicinais e outras que não sei... não queria pensar nessa merda que o mundo se tornou... tento melhorar minha vida mas revela-se inútil... o antro é pura imundície... doces canções para suportar... todas as noites tento um mundo de fantasia... formiga na tela... o labirinto é cruel... calmamente sigo... penso entender mensagens subliminares em tudo... tenho certeza que não estou louco... tenho milhões de certezas que não servem para nada... o vórtice de lama é cada vez mais forte... o espelho velho merece ser quebrado... despejo minha ira em qualquer coisa... ontem tive medo de dormir só... olho o céu e não entendo uma beleza tão devastadora... animais dormem no sofá, animais regurgitam na privada, animais dançam na tela, animais passeiam com outros animais... na gélida sala de cinema afundo-me em doce contemplação... e dentro da realidade fundem-se mil realidades intraduzíveis... todo dia é uma nova morte... bocejo ... sinto travar tudo... espero que tudo acabe bem... estou só e não estou... faltam apenas alguns milhares de dias para que tudo acabe... odeio fim de ano... sempre acontece merda... féretro... a noite desce numa suavidade deliciosa... coroa de flores... amanhã é meu aniversário de qualquer coisa... animais gritam na sala.
Amanhece... inicio a perda de mais um dia... o gato dorme profundamente no sofá... da janela do ônibus vi Ferreira Gullar caminhando em Copacabana... porquê a velocidade das coisas? Tento ser lento... na beira do abismo que é a consciência arremesso minha linha, passam-se eras e eras e nada... lá fora o sol é engolido por uma nuvem... e num quarto desfaço nós um atrás do outro... se a minha vida fosse um sonho não queria acordar... copo vazio debaixo da cama... sou um péssimo negociador, nasci para o deleite contemplativo... bala... foice.. martelo... dinheiro... M16... AR15... HK... sinto saudade das madrugadas repletas de saraivadas, enxames de abelhas fumegantes cruzando o firmamento... Joan Baez acalenta a lama nas primeiras horas do dia... uma nova porta se abre... pés de chumbo... minha loucura me basta... a fome mais uma vez atormenta... as portas se fecham... a significação das coisas vai sumindo... um peido pela manhã quase em jejum me faz lembrar Jean Genet... viola... guitarra... berro... drummor... baixo... distorção... começa ontem termina hoje termina ontem começa hoje... escalo meu abismo com furor mas o buraco lá embaixo clama minha queda... bocejo... ali a latrina me espera... bichanos miam na manhã de quinta-feira...fuligem... nervoso... sobrevivo não sei como... minha bisavó tece um fio eternamente na parede da sala... sem identidade... todos engolidos pela morte...
A todo instante penso que alguma coisa vai parar... com uma foice em punho caminho pela casa de paredes sujas... deparo-me com um adolescente sem rosto... não há diálogos... tremo que nem vara verde... as mãos pingam... desfiro o primeiro golpe... o moleque tomba... fome muita fome... lambo o gume da foice... a cabeça de um lado, corpo de outro... novo golpe e agora separa o tronco... meto a mão nas vísceras ainda quentes... sede muita sede... totalmente descontrolado arranco os braços, as pernas... e danço na poça de sangue respingando vermelho nas paredes de pau-a-pique... banhado pelo que restou do outro abro uma porta de um quarto escuro, entro e é como se nada tivesse acontecido... todos os dias retorno pro meu leito de solteiro... quisera não retornar, sempre ir sem saber onde chegar... todos os dias é viver o pesadelo da monotonia... ouço os velhos discos com sangue de outro ainda nas mãos... aprecio os coágulos na lâmina... urge a morte em meu peito... nada é sério... quando falo é a minha voz? Quando penso é a minha consciência? Quando acordo não estarei acostumado ao pesadelo ao ponto de pensar que aqui é o real? Tudo são retalhos desconexos... ejaculo no vazio para que o sono venha logo... hoje a lâmina descansa... amanhã talvez eu não saia do quarto escuro... amanhã talvez seja tudo escuro...
A luz incide sobre a planície... na tela luminosa o passado se repete... a prostituta de rosto angelical não me reconhece, depois sorri, resgatando meu registro de sua profundezas... fecho portas e janelas... e num outro dia tenho a impressão de que a vida é um quebra-cabeças desmontando-se... a tarde de domingo é de brisa afável, garotas vestidas de rosa-shock e lambuzando-se com sorvetes servidos em copinhos de plásticos...ali na esquina o inferninho vibra... o aleijado passeia sorridente em cima de um skate, usando a mão como alavanca impulsora... catarro vibra quando tusso... o povo pulsa pelas veias da cidade no crepúsculo que se anuncia... qual é a minha missão?... minha única arma é contemplar... o silêncio aumenta ao meu redor...tenho sensações apavorantes... a criança olha-me com curiosidade, a criança vai embora sem que eu corresponda... pipas dançam no ar... monóxido de carbono... num momento ao abrir a primeira página sinto a mixórdia de cores do contato inicial, dias depois mesmo sem ter a intimidade necessária, julgo a obra lenta, tediosa e penso em abandonar a leitura... o cego repete o seu mantra com voz de contralto “dai-me uma esmola, dai-me uma esmola “, mas ninguém escuta... será que não há nada melhor que a raça humana?... não acredito em você, não acredito em mim, não acredito em porra nenhuma... paranóia... zombaria... outdoors gritam forte dentro de minha cabeça...
A cada passo parece que qualquer coisa vai estourar... nas antagonias que compõe a vida vou despedaçando o resto do cacos... meu bichano preto e branco alisa meu coração num sonho... sinto-me só... apenas a doença e eu... quase entrego os pontos... castração profunda... o verme da angústia lambe meus pés, nada numa poça de pus em minha coxa... leio histórias deliciosamente horríveis... a manhã explode multicor... pulmões morrendo... catarro perene... gosto de sangue... tudo é um louco diálogo para não pirar... cheiro de café... na noite de segunda-feira lágrimas aos olhos... longe muito longe... uma mão invisível aperta-me o peito... são tantas as cobranças... meu reino já nasceu falido... daqui debaixo lembro da beleza de contemplar a província do alto da montanha... coração enfraquecido... sempre revolvo as tralhas... revistas... livros... fotos... colares... fitas... discos... uma a uma as gavetas são esvaziadas... vísceras sem sangue... ali a vida, aqui a vida que se esvai lentamente... estranha sonolência... há 38 anos atrás um recém-nascido lutava contra formigas... fecho os olhos, a escuridão parece confortável... luto contra a apatia... desço a escada, tenho a impressão de que é interminável... levanto-me, vejo o sol surgir... sobre o rio contemplo as nuvens... enigmáticas formas... uma parte quer dormir... a outra quer vibrar...
Vão-se as horas na comédia da vida... o trem não pára... e o futuro?... saber é irremediável... cai o véu... traço no escuro... toda maravilha é ontem... hoje é recomeçar, o que fica pra trás é pó desaparecendo na linha do horizonte... osso ruído... películas de realidade... de olhos vendados sinto como jamais senti... vem mais um dia... silêncio... lâmina trabalha lentamente... um momento, um minuto... o valor de tudo se esvai... longas correntes... a noite me espera com entranhas macias... ontem a lua pairava em rara beleza... somos sozinhos... somos uma grande e inverossímil piada... sem lastro, sem vida, ausente de valor... menos que um pária... verdadeira lástima... criança espúria... não nasci em lugar nenhum... cada vez mais as lembranças tornam-se insignificantes... janelas que não quero mais abrir... pequena menina branca de gestos carinhosos tem medo de tomar banho sozinha... todos os dias nos últimos três anos, estranhas vozes me dizem, que posso vomitar, desenhar, que minhas mãos vão além do que já são.... o sono puxa-me para o fundo do poço... já passa da meia-noite e as portas e as janelas ainda estão abertas... agora que o cadafalso desce numa velocidade vertiginosamente, imagens vem e me beliscam, cospem, arrancam as cascas de suas feridas diante de mim... você é o que é.
Domingo 27-11-2004
Domingo 27-11-2004
Tenso. Equilibro-me no delicado mundo real. Cada vez é pior. Sinto as tripas arderem. Percebo que as coisas não estão como deveriam. De uns dias pra cá tudo desmoronando. Imensa fragilidade. Aqui com o copo na mão escuto a conversa mole de um transeunte. O mesmo lero-lero de sempre. Sinto vontade de vomitar. Pressinto que a ressaca será dantesca. Engulo a dose de conhaque barato rápido. As tripas ardem mais. O sol castiga impiedosamente. Suo frio. O estômago dói como se tivesse uma gilete passeando cada vez mais no fundo, cada vez mais rápido. Mordo os lábios num misto de dor e inexplicável prazer. O trautear do relógio me pertuba.O tempo não passa. Não agüento mais o balcão, trôpego dirijo-me à mesa. O raciocínio indo embora. A música horrível me faz pedir outra dose, porém de cachaça. Agora só bebo devagar. Daqui desta berlinda de ferro ouço a algaravia das outras mesa: “Eu mato aquela puta, juro por tudo, não vai sobrar nada.” “Ai gatinha vamo nessa que eu tô fissurado nessa buça.” “ Ei rapá essa breja tá quente pra caralho.” Lá fora o sol indo. Não lembro o dia que tenha comido de verdade. Esqueci o sabor de quase tudo. Só memória visual. Não sei onde isto tudo vai dar. Difícil é lembrar como chego em casa. Mesmo cego nunca erro o caminho. O sol ameaça se pôr. Peço a última dose. Engulo de um gole só. Peço outra. Nova porrada. Tonto saio sem rumo definido. Mal viro a esquina e o ventre estrebucha, ânsia de vômito, penso nas últimas doses sorvidas com tanto deleite, respiro fundo, consigo controlar a máquina já arruinada. A cabeça parece que vai explodir. Recomponho-me como posso. Tento caminhar. O gosto indefinível de bílis angustia-me. As pessoas ao redor olham com espanto. Até parece que nunca viram um bêbado. Outras reclamam do meu cheiro. No ponto de ônibus afastam-se de mim. Em profundo alheiamento constato minha total decadência antes das 18:00 hrs. No ônibus sento nos degraus e recomeço a luta contra o Sr. Vômito. Respiro com dificuldade. Cada um que passa pedindo passagem solta um refrão: “Coitado deste aí”. “Vagabundo”. “Jesus te ama”. Nem reajo, afasto-me desajeitado. O hábito avisa que chega o ponto de descida, quase sou chutado. Um moleque cantarola “beber até morrer...”, mando ele à merda com um sorriso nos lábios. Dirijo-me à Praça da Catedral. Antes vou a padaria tomo um copo de café puro. A ânsia de vômito dá uma trégua. Suor desce das tempôras. Vou à banca de revista. Não consigo prestar atenção em nada por muito tempo. Mais uma vez no balcão. Tento disfarçar a fome com uma cerveja. O cara no teclado berrando Carlos Alexandre é insuportável. A cerveja acaba. Peço um torresmo. Parece que tem dez dias. Engulo com dificuldade. Peço mais uma. O garçom atende cansado como se a vida dele tivesse acabado. Não deixo ele me servir. Encho o copo e engulo o líquido dourado até o gosto do torresmo desaparecer. Quase cego levanto-me sem pagar a conta, o garçom vem até a mim, escrutino os bolsos, acho moedas e alguns trocados amassados, peço que conte, minhas mãos trêmulas não me permitem. Pago e vou a escadaria, sinto a brisa, olho pra cima, não consigo ver nada, alguém grita “10:30”. Agradeço e sento-me contemplando as árvores. Hoje os degraus da velha alcova estão vazios. Cada árvore parece querer estabelecer um diálogo. Em pensamento digo-lhes que não estou pra conversa. O tempo voa. Quando tento olhar as horas um passa e diz ‘quinze pra meia-noite’. Respiro tomado por uma ânsia horrível. Tudo embaçado. A bexiga revela-se um oceano de cerveja, cachaça, conhaque. Tento segurar. Nem percebo e já estou mijando o mar morto nos portões da velha catedral. Uma vertigem incontrolável faz tudo girar e despenco, choco-me uma vez contra a parede de cimento, sinto o cheiro de minha urina, tento me levantar, não consigo, e caio novamente, desta vez o estrago é pior, sinto o gosto de sangue, as pernas bambas e despenco pela terceira vez. Tento recuperar as forças, ofegante levanto e cambaleando vou até a escada. Desço pior do que um aleijado desceria. Caio novamente. Enfim resolvo ir para casa. A baiana que não é baiana já desarmou sua banca. Vou pela rua Santo Amaro ziguezaguiando. Quando chego na rodoviária velha dois policiais me abordam , ‘identidade’, as mãos trêmulas buscam a carteira com dificuldade, ‘e esse sangue?’, pergunta o outro policial, ‘tava mijando e despenquei com, a cara no mijo’, aquele que pegou minha carteira devolve com um sorriso de irônica piedade, ‘ vá pra casa , não quero lhe ver mais por aqui hoje!’ por sorte vem um ônibus, constato o vazio do bolso, carteira idem , com o bafo de anteontem peço pela enésima vez para entrar por trás, o motorista cede resmungando, ‘pra encher a cara têm dinheiro.’ Tempestades nauseabundas acordam-me de um sono vazio de sonhos,abro a janela e vomito caudalosamente, banho as janelas e toda a lateral do ônibus. Limpo a boca com o dorso da mão direita. O estômago queima. A cabeça dói. Tento cochilar. Fecho os olhos. A velocidade do veículo pertuba profundamente. Num repente já é manhã de insurportável ressaca. Não consigo raciocinar. A boca amarga. Tudo amargo. Suando frio. Mais um dia de repleto nada. O calor avança. Sede muita sede. Me arrasto até o banheiro, regurgito o que resta da bílis. Levanto e olho as feridas em minha face. E estranhamente não resigno-me, não há remorso apenas uma leve constatação de minha fragilidade física. Sem escovar os dentes volto pro leito. Durmo faminto pois não entra nada. Daqui a pouco será noite. Logo o dia vai passar. Mas esta noite não sairei.amanhã talvez. Porém hoje é só um dia e nada mais!
Um copo atrás do outro... cego... vou pra onde não sei... caminho sob o sol escaldante da manhã... cocaína... bolso vazio... fígado podre... espero não me fuder um dia... todo o corpo dói... vida miserável... mão trêmula... vômito... sono... e o futuro?... vida nova chora nos braços de minha avó... luz insalubre... cada gole uma mancha escura reaparece e toma conta... o mundo ferve lá fora... aqui na ressaca espero que a agonia vá embora... quero um mundo só pra mim... quero tudo que não posso... cabeça latejando... últimos centavos por mais uma dose... doença... cansei de tudo... totalmente sem controle... onde está o amor?... onde está o ódio?... tédio, tédio, tédio... a menina sorri e louva a morte... vou ao banheiro e quando as mesas estão vazias... quebro um promessa... Ororo eleva-se numa nuvem imensa e vai embora em meio a ventania, raios e trovões... o que eu tenho?... nada!... o que eu sou?... um covarde!... e o amanhã?... juro que não sei de nada!... será que ávida é líquida?... cada dia o veneno é mais forte... fel... completamente imaturo... eu sempre estrago tudo... acabou a magia das coisas... hoje a pá está mais cheia... sinto-me um bastardo... não tenho nada... nada!
2 – abril - 2005
2 – abril - 2005
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