terça-feira, 4 de maio de 2021

A margem é o lugar. 

A solidão é a dimensão

No cume do nada contempla-se

Um eterno fim.

O grande muro do silêncio expande-se

Célere e indestrutível.

A memória fragmenta-se

Em filigranas de angústia.


O mundo desaba em cântaros 

A busca nunca cessa

Cada esforço uma mão vazia que tateia o escuro

Toco meu corpo,

Não sinto nada.

Ouço minha voz

E nada traduzo


O estertor de existir 

É insustentável.


Jan - 04/05/2021


terça-feira, 9 de abril de 2019


ENTRE A NÉVOA DO SONO
E A BALBÚRDIA DO AMANHECER
VEM-ME AO PALATO O VERBO REDIVIVO
IGNORO TAL REDUNDÂNCIA...
PALAVRA PERDE-SE EM MEIO 
AO REDEMOINHO DA MEMÓRIA

ECO RASTEJA NA PELE SOFRIDA
ROSNA A CAVIDADE EM FAMINTA ÂNSIA
JANELAS QUE SE ESTILHAÇAM
PÉROLAS ATIRADAS AO ERMO
CICATRIZ QUE GRITA TONITRUANTE

LONGE MUITO LONGE REPOUSA OUTRO
QUEM SABE INÉRCIA
REDE AUSTRAL ACALANTANDO O CORPO FEBRIL
QUE JÁ ÚMIDA DE LÁGRIMAS AMEAÇA PARTIR-SE

TUDO INCÓGNITA GROTESCA
ESTRANHA FACE INTEROGADORA
DE PUPILAS VAZIAS E BOCA RÚTILA
SATÉLITE INEXORÁVEL QUE NUNCA SE CANSA
ASPERGINDO GOTAS VENENOSAS
SEMEANDO O PESAR E A LAMÚRIA

SALA VAZIA, SOL A PINO, HÉLICES GIRANDO
APENAS PIORA TAL QUAL UM ESCADA COBERTA DE LIMO
CONDUZINDO DE VOLTA AO FOSSO ORIGINAL
ONDE A VOLTÁICA ENERGIA DA SAUDADE
BANHA OS DIAS COM FERVOROSA DOR.

24-04-09 f. a.
ARTE - jdl 2019

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018


MAIS UMA PÁGINA
MAIS UM DIA
O SONO COMO DÁDIVA
DELICIOSA FUGA
O VERBO TAL QUAL RESSURREIÇÃO 
TATEAR INFANTIL POR VELHAS TUMBAS
QUERIDA MEMÓRIA ATESTANDO
O QUANTO A VIDA É FRÁGIL
VOLÁTIL VAPOR
COR QUE SE PERDE
SOM QUE SE ESQUECE NAS MIRÍADES INDECIFRÁVEIS DA ROTINA
QUEBRO MINHA LÍNGUA
CALO MINHAS MÃOS
FURO MEUS OUVIDOS
E SE MINHA SOMBRA TIVESSE VIDA?
TENHO CERTEZA QUE ME DEIXARIA SÓ
NU RELEGADO AO NADA
ENTREGUE AO ECO TUBERCULOSO DE MINHA TOSSE
AO ESTREMECER FASTÍDICO DE MINHAS MÃOS
AO FENECER DE MEUS GLOBOS OCULARES
E SEU TIVESSE VIDA?
O QUE FARIA?
25/05-2004 - 22:15 - RJ

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

VOZES DERRETEM
NA CABEÇA.
RARAMENTE O SILÊNCIO.
CONSTANTE ALGARAVIA.

SINTO. IMPLODO.
TUDO INÚTIL...
TUDO SOBRE CONTROLE.
TRAVADO. ENGASGADO...

HORAS SOLITÁRIAS.
ESPERA SUICIDA
MORRE MAS PERMANECE
VIVE MAS RECUSA.

novembro - 2018

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

NO VAZIO OPRESSOR
DA ESPERA
A NOTA SINGULAR
DE UM SOLFEJO ÚNICO
ACALANTA O SER
EM DERROCADA!

SENTIU?
GUARDE.
NUTRA-SE NESTE SENTIR.
FECHE O LIVRO.
ESQUEÇA.
SUFOQUE NO SILÊNCIO.
DURMA!

ALEGRIA MÍNIMA DE CARACTERES DEVORADOS
POR UTOPIA NATIMORTA.
GENUÍNA  CADÊNCIA QUE RESTAURA!
VÃ DELÍCIA NOTURNA ONDE PERCO-ME!

24/11/2018 - ()

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Sou filho do movimento para o movimento que gera movimentos mil

Quando paro num movimento só
que gera um movimento só de movimentos unos.
Sinto a morosidade da morte doméstica se aproximando.

Todas as caldeiras esmorecem as chamas da criação.
A rede balança silenciosa.
A espera do nada.

15/08/20186

segunda-feira, 20 de novembro de 2017


        
         03-05-2011

         Lendas do concreto somem na fuligem. O etéreo, vaga de arroto a peido à fedentina de sovaco sujo a hálito cariado. No sonho agarrava sem jeito pequenos peixes e os depositava de volta no aquário que transborda sem parar. Cada dia mais só. Outrora se masturbava no quintal ouvindo os murmúrios dos vizinhos; tv, ruídos de cama, gatos em combate, uma vaca solitária num quintal minúsculo, pombos que nunca dormem, essa torrente amalgamando-se aos espasmos do ventre e ao tremer das pernas. O solo fértil recebendo milhões de vidas natimortas. Agora lhe resta o silêncio da madrugada quando acorda de pesadelos terríveis e não há outro modo de alcançar o sono a não ser a prece a Onan. Despertar dia-a-dia torna-se um martírio encarar a batalha da caixa metálica transportadora. Sem vitória. Todos iguais. Agora um medo crescente. Como se o próximo passo fosse um presságio mortífero. No solavanco acorda e contempla a menina de olheiras e glúteos perfeitos. Difícil não contemplar a saúde que emana das formas juvenis que  antagonizam com a rotina noturna denunciada em sua cavidade orbital. Surge desconhecida some lembrada; no átomo que é a província talvez ela desapareça. E com bafo de pura mortandade expele conselho aos ouvidos de uma quase-morta. Antagônica. Apostasia. Pesada e inefável a carga da vida trespassa a carcaça relutante. Agulhas passeiam no peito raquítico. Populações espalham-se pelos recônditos do corpo. Ninfas saltitam ao redor do lago artificial. Da caverna suspensa o corpo lateja em voluptuosa contemplação. Das profundezas de estantes repletas ouve um parceiro humilhando o outro. A máquina move-se obediente. O corpo contradiz e persiste. A tarde chega.

sábado, 21 de outubro de 2017

12 – março – 2010

Diante da tela ele descansa. Diante da página ele viaja, transpõe os próprios limites. A água do chuveiro desce suave, de olhos fechados deixa-se ao devaneio líquido. A sujeira descendo. Sente ele em si indo pro esgoto, tala qual intimidade quente e avassaladora. Sem transeuntes, sem vozes, nada de cotidiano, apenas ele e os canos sujos, indo misturando-se com todo o resto até ser uma massa difusa sem distinção, quem sabe morte, quem sabe nada. Deita-se pesado. Uma pedra, um bloco, um peso no peito, o ar cada vez mais rarefeito, espera o sono, chega a passos lentos, telhados dissolvendo-se, escuridão que abunda e abraça tudo. A palavra soa, ninguém entende, música inebriante que surge do nada. A poça de lama no quintal exala um odor nauseabundo. Acocara-se perante a poça, o que vê é terrível; porque até pro belo é terrível contemplar-se, no caso dele é diferente sem ser, pois sabe muito bem que a feiura é o que lhe veste. Marasmo total. Joelhos doem. Levanta-se com dificuldade. Zonzo. Caminha de volta ao casebre como se fosse um passeio final ao cadafalso. E dentro da enorme caixa de aço que desliza pelas ruas, a pele, o corpo roça, choca-se e sente vindo das bocas, das axilas, dos cabelos, das genitálias, miríades, galáxias, nuances, rastros que deleitam, dão nojo, as papilas reagem, uma batalha estar e permanecer em pé. E quando desce não sabe pra onde vai. Ruas desertas. Praças sujas. Janelas vazias. Estranha sensação de ser o único que realmente está vivo. O que fazer numa rua de portas fechadas? Tentar ouvir? Tentar sentir o que há lá dentro? Encosta o ouvido na parede mas não consegue captar nada. A copa das árvores da praça emitem um som, quase uma canção. Senta-se no meio-fio, cospe no asfalto quente. Engole seco. Lê e então entende. Escuta o agouro. Limpa o suor da testa. Anda. Continua.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Todo ato benigno
Germina merda
Floresce dor
Estoura as têmporas

Carícia dissimula
Em falsidade exclusivista
Corpo dói
Nojo nasce com força temporã

Bruma nuvens chuva
Ânsia profunda húmus ser húmus
Alma em colapso
Mente em desvario

Tudo mas tudo mesmo
Fora de controle
Dentro de uma loucura
Dentro de insuportável dor

Toda tentativa é falha
O prazer algo inalcançável
Como tudo o mais
Como sempre foi e será

2001






Antigas interrogações se repetem
Como num mantra repetitivo...
Agora agarro a palavra do jeito que dá
Pois a ideia tornou-se escorregadia, fugaz

Não me iludo com, faces risonhas
Lembro-me de máscaras irônicas;
No fardo que é minha senda...
Torno-me frio, distante e indiferente

O pesadelo, o fel de antigos fantasmas, dor...
Uma mão poderosa afunda meu peito
Quase afogado, morto, sei lá, acordo
Coração tonitruante, mudo, amedrontado

Todavia  sei que sou minha ruína
E uma imagem se repete cada dia mais próxima
Lâmina conclusiva, serpente letal, cova escura
Nada fui, nada sou, nada serei...

17/09/1999